segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

tomou?


hahah se fodeu Berlusca!! Num intindiii ainda...Cafetão ou primeiro ministro? Vou pedir ajuda ao Vaticano =/

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

núpcias, o verão - Albert Camus


Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.

Aqui, compreendo o que se denomina glória:

o direito de amar sem medida. Existe apenas um único amor neste mundo. Estreitar um corpo de mulher e também reter de encontro a si essa alegria estranha que desce do céu para o mar. Daqui a pouco, quando me atirar no meio dos absintos, a fim de que seu perfume penetre meu corpo, terei consciência, contra todos os preconceitos, de estar realizando uma verdade que é a do sol e que será também a de minha morte. Em certo sentido, é justamente a minha vida que estou representando aqui, uma vida com sabor de pedra quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras, que agora começam a cantar. A brisa é fresca e o céu, azul. Gosto imensamente desta vida e desejo falar sobre ela com liberdade: dá-me o orgulho de minha condição de homem.

Sobre o mar, o silêncio enorme do meio-dia. Todo ser belo tem o orgulho natural de sua beleza, e o mundo, hoje, deixa seu orgulho destilar por todos os poros. Diante dele, por que haveria de negar a alegria de viver, se conheço a maneira de não encerrar tudo nessa mesma alegria de viver?

Não há vergonha alguma em ser feliz.

Há um tempo para viver e um tempo para testemunhar a vida.Os deuses resplandecentes do dia retornarão à sua morte cotidiana. Mas outros deuses virão. E então, para serem mais sombrias, suas faces devastadas nascerão no coração da terra.

Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda aexuberância de meu ciúme e de meu horror.

domingo, 6 de dezembro de 2009

desligue

Há uma pequena cratera em meu peito, onde os calafrios ressuscitam minhas memórias e duvidas...Serão essas imagens que enfrentarei na última queda?
Já tenho respostas de olhos abertos, mesmo quando estou adormecido...
Costumo cair quando trago uma nuvem oferecida (a cada palavra incompreendida).
Saliva seca que arranha o coração...Como cordas cortantes de um navio muito viajado...
Um desespero pouco superado, Música antiga...
Esses faróis em cor de mel já leram essa fábula. Já nem choram os dias...
O certo é que procuras as mesmas histórias...Aqueles sofríveis caminhos fazem do tédio uma pequena e melodramática aventura.
Viste como é bom sentir o vento de orvalho solitário no rosto? A sensação é intransferível em cada pele...
Meus nervos gritaram em lamentos da fresca espera...
Não preciso mais dos ouvidos porque os sons nem sempre dizem a verdade, e todos, todos que cantam nem sempre precisam sentir!
A verdade reivindica atos...
Vida - esse teatro intenso da crueldade...
Letras esdrúxulas que adornam aqueles que desistiram da vida...
Nada mais que isso – você lembra os detalhes daquele leito? Desisto de minha boca – ela alimenta os sintomas sintéticos que conversavam a verdade...(foi através dela que tentaram alcançar o ponto fraco verídico) Ah se não fosse aquele monte de lixo amontoado no lado esquerdo...
Eu não preciso de flores, não quero me explicar a ponto de não ser mais compreendido, como criança que chora, não por causa de um peito, mas sim por uma comunhão de maldiçoes e entrega.
Não preciso daqueles que se passam de santos ou mártires: eles podem ser quebrados no chão...Ou rabiscados nas paredes, ou nos santuários de adolescentes despidos...
Não preciso de agrado levianos que tentar de forma suplicante superar a posse de um toque.
Essa pequena cratera é um ralo degustando lagrima nunca expelida. Consome-me, porém abastece-me de um arsenal inesperado.

Pois bem meu amigo, já tenho todas as respostas aqui. Realmente seria melhor não ter mais olhos, mas se arrancados, a minha alma flagraria mais o que deveria (ou mais do que já vê!). Desligue meus sentidos, mostre a real anestesia que me traga de volta alguma criança adormecida que tenha ânsia das malicias vida abobada - ela está imóvel debaixo deste couro adocicado debruçado em ossos retorcidos.
(nesta caixa pulsante onde moram meus hóspedes mortos).
Ilusão fétida se conecta as mais mansas luzes da galáxia que acariciam os mais lodosos pensamentos.
Esse canto vazio onde esperava encontrar a esperança de um gozo eterno como orquestra que arquitetou a vida com promessas das flores...
Somos unos; terra, polpa, pasta bruta que ri da dor alheia, para injetar alegria azeda num rosto estático como máscara mortuária...
Avatares são equívocos...
Esses louvores ao nada.
O opaco & amargo do silencio ele não necessita de palavras... Não necessita de nós.
Adeus pai da tentação!

sábado, 5 de dezembro de 2009

vindo do além....


Bebo um copo de whisky manchas inevitáveis de serem notadas. Brinquei com o diabo, me iludi pela fantasia, fiquei feliz com meu fracasso. Meus desejos foram embora, madrugada sem sono...Como somos banais e ridículos; tentamos ser o que não somos! É uma pena não haver mais um sorriso em seu rosto que hoje eu amo, hoje só a saudade e a tristeza do que passou...
(E.M)

vontade líquida

o amor ressuscita membros desmantelados, dispersos dos sintomas da velhices...sim é aquela força que vai além das luzes artificiais desta época de sombras...vai além das vontades impostas..como línguas que borra o horizonte quente e avermelhado - o abismo oculto do universo. Ainda precisamos cravar a bandeira do auto controle?

domingo, 29 de novembro de 2009

The Danse Society


Com muita saudade do inverno, mole ao som de Twilight Ritual, vamos ao que prometi; um pouco mais de música. Com muita lembrança daquele clima “wave” falarei de um rebento do pós-punk que veio do norte da Inglaterra: The Danse Society.

(este texto já foi reproduzido inclusive no last.fm sem minha autorização. tudo bem que não é grande coisas, mas propositalmente fiz algumas mudanças para que lá as incluam também).

Em seu pesadelo
Todos somos tão felizes


O OMD foi além do Danse Society ou o Danse Society foi além de OMD? Sei que pode ser viagem minha, mas as duas bandas trilharam caminhos parecidos; no começo de suas carreiras, o som de ambas causavam certa angustia e resistência numa atmosfera ou inferninhos iluminadas a meia luz. Com o passar dos anos eles renderam ao white funk que buscava as danceterias mais sofisticadas iluminadas com néon ou laser.

Das duas, eu tenho mais propriedade de falar daquela vinda de Shedffield que está na lista das minhas (cinco?) bandas prediletas e as quais suas músicas me fazem viajar em cenas de filmes b como "Um Mundo Desconhecido" (1951), "Fantasma do Espaço" (1953)...Aliás, elas poderiam ser a trilha de trechos deles em alguma montagem feita por algum fã para o Youtube.

Tudo teve início no Y?, uma banda composta por Bubble (baixo), Paul Gilmartin (bateria), Paul "Bee" Hampshire (teclados), Dave Patrick (guitarra) e o andrógino Steve Rawlings (vocais/synths e percussão). Em 1979, após gravarem a faixa "End of Act One", que fez parte da compilação Bouquet of Steel (lançada em fevereiro de 1980 e que reunia bandas da cena local, e é um item raríssimo!), o Y? anexou dois membros do Lips-X; o guitarrista Paul Nash e o tecladista Lyndon Scarfe. O Lips X tinha acabado de lançar, com muito esforço, um mini álbum em k7 chamado Everything to Lose e tinha uma direção muito parecida com o Y? e a idéia de juntar os talentos foi certeira. Com a fusão, o grupo denonimou-se Danse Crazy. Bee deixou a banda e foi para o Japão onde formou o glam/new romantic Panache e, depois, de volta à Inglaterra, assumiu os vocais do Getting The Fear, composto pelos ex-integrantes do Southern Death Cult que posteriormente se transformaria no Into A Circle.

Com a repercussão da cena eletro de Shedfield, o Danse Crazy é convidado para participar do lendário The World's Second Science Fiction Music Festival mais conhecido como Futurama Festival que aconteceu no Queen's Hall onde dividiria o palco com alguns nomes conhecidos: Joy Division, Cabaret Voltaire, A Certain Ratio, OMD, Public Image Limited, Soft Cell. Este evento que reuniu audiência de mais ou menos seis mil pessoas foi transmito pela TV BBC em novembro de 1980. O Danse Crazy apareceu em rede nacional tocando a música "Sink" cujo estilo é um bom resumo de sua fase arcaica que lembrava muito o Trisome 21 (que faz sua segunda apresentação em SP amanhã) dos primeiros compactos. Depois disso seguiram algumas apresentações, incluindo um show de abertura no Manchester Poly para o Cure que os convida para outro gig numa festa de Natal que Robert Smith e seus companheiros organizaram em Londres.

Dave Patrick e Paul Hampshire decidem ficar em Londres para fazer fama e dinheiro, mas caem no anonimato.

No início de 1981, os membros remanescentes imediatamente se trancam no estúdio Hologram em Stockport para gravar a música "These Frayed Edges" com Lyndon Scarfe fazendo as bases de baixo e teclado. Em fevereiro, depois de diversas audições, Tim Wright é convocado para o baixo e um segundo tecladista é dispensado da formação da época que contava com Paul Nash (guitarra), Steven Rawlings (vocais), Lyndon Scarfe (teclados), Tim Wright (baixo) e Paul Gilmartin (bateria). Com mudança significante do som, a banda decide mudar de nome; eles mantém a palavra “Danse”, devido ao grande número de seguidores desde a sua primeira encarnação, e no lugar de “Crazy” colocam "Society" , inspirado num poster que continha a frase "o país e a sociedade ocidental" visto num show em uma universidade local.

Próxima parada no estúdio e desta vez no Ric-Rac em Leeds para gravar o single “Clock/Continent” editado em maio daquele ano pelo próprio selo, Society Records. Logo em seguida assinam com o recém inaugurado selo punk Pax Records (cujo dono passou ser o empresário dos rapazes) que o reeditou o 7” em agosto de 1981. Aproveitando o contrato, lançam o 12” "There is no Shame in Death" que continha três faixas gravadas na fase "Danse Crazy"; a faixa título, a instrumental "Dolphins" e a enigmática "These Frayed Edges".

"Freqüentemente nos comparam com Joy Division, não sei exatamente porque. Talvez pelo feeling; em todo caso, a nossa música é otimista." - afirmou Rawlings.

Em outubro de 1981 participam da primeira Peel Session. A gravação aconteceu na Universidade de Sheffield com um set de quatro músicas: "Womans Own", "Were So Happy", "Sanity Career" e "Love As Positive Narcotic". A session passou a ser uma das favoritas de John Peel e foi reprisada três vezes. Este registro também agradou tanto a banda que "Womans Own" e "We're So Happy" viram versões oficiais e acabam virando single. A transmissão projetou a muito bem o que resultou num grande review de um show no The Golf Club publicado na Malody Maker no começo de 1982.

Em fevereiro daquele ano saí a coletânea anti-guerra da Pax chamada Wargasm, a qual a banda participa com a música "Continent" num track list só com bandas punks. Seguem então suas as disputadas apresentação de suporte ao Theatre of Hate (no The Marples) e Killing Joke (seu segundo show em Londres).

Alguns meses depois o EP “Womans Own” é lançado nos formatos 7” e 12”, sendo que o full lenght tinha mais duas faixas: “Belief” e “Continent”. O Danse Society volta para Londres para abrir dois show do UK Decay; um no Marquee e outro no Zig Zag Club.

Outra gravação em estúdio e desta vez é para a demo de “My Heart” e decidem trocar de empresário.

Em outubro de 1982 sai o mini-LP Seduction (Society Records), item básico para qualquer amante do early goth britânico. O disco foi bem recebido; visitou alguns charts independentes e ganhou até uma edição japonesa.

Seu amadurecimento musical chamou a atenção de algumas gravadoras grandes. O estilo do Danse Society poderia ser até básico para quem está acostumado com o som de muitas bandas da época (levemente dançante, teclados hipnóticos e cold wave...), mas tinha algo especial que poderia dar uma nova cara ao techno-pop em voga. A atmosfera aterradora das músicas e o vocal sussurrado de Rawlings reproduzidos fielmente no stage fez com que a resposta por parte do público e da imprensa também fossem bem positiva.

Após o lançamento do single “Somewhere”, em 1983, o Danse Society assinou com a Arista. O primeiro registro pela major foi o single “Wake Up” seguido do full-length Heaven Is Waiting. Com o respaldo da major, vieram as primeiras aparições no Canadá e nos EUA (no Danceteria) ocasionando uma maior popularidade. O imaginário criado pelos temas combinado com as luzes, fumaças e projeções de vídeos no palco fornecem uma boa idéia do clima do álbum Heaven is Waiting que apresenta um som mais coeso e elaborado. Mesmo assim, sua venda não satisfez as expectativas da Arista que passou a exigir um som mais pop. O pedido foi atendido muito a contra gosto, resultando no single “Say It Again”, cujos diversos remixes acabaram entrando nas paradas dance/pop do EUA e Europa. Descontente com nova direção musical, Lyndon sai e um novo tecladista é recrutado: David Whitaker (ex-Music For Pleasure), que rapidamente se adapta dando uma outra dimensão ao estilo do Danse Society.

Os fãs torceram o nariz para a nova fase. Opondo-se ao contrato, eles tentam voltar às raízes gravando em 1986 o single “Hold On (To What You´ve Got)”, que acaba não alcançando as vendas exigidas. Havia planos de lançar um álbum chamado Heaven Again, mas a Arista engavetou com receio de mais um fracasso comercial.

Em 1987, já fora do cast da gravadora, a banda finalizou o LP Looking Through, um álbum com mais pontos baixos do que altos. Em sua contra capa contém o aviso de que aquele seria seu último trabalho. Steve Rawlings decide partir para formar o Society, que durou muito pouco, mas lançou dois singles (“Saturn Girl” e “Love It”), ambos produzidos por Youth (Killing Joke, Brillant, KLF..). Este trabalho revela quem era o culpado pela discórdia que levou a sua saída do Danse Society: o vocalista assumia a proposta mais funk orientada por baterias sintéticas pronta para as pistas de dança. Depois da desastrosa experiência, anos mais tarde ele passou a dedicar-se ao projeto de música eletrônica ambiente chamado Meridian Dream, enquanto o resto da banda tentou segurar a onda (ainda como Danse Society) com o também ex-Music For Pleasure Mark Copson (vocal) gravando demos e fazendo algumas apresentações na Espanha. Após isso, passam a se chamar Johnny In The Clouds, mas logo se separaram.

Em 2001 a Anagram Records relançou em cd o mine-LP Seduction no formato de coletânea, incluindo outros singles em seu track list. É da Anagram também a segunda edição digital com bônus tracks de Heaven is Waiting (a primeira saiu por volta de 1992 pela Arista/Great Expectations). Em 2007 o selo também reeditou Looking Through em cd, com um encarte bacana, porém sua remasterização é algo constrangedor...

sábado, 14 de novembro de 2009

aqui é onde começa o fim


Não dou nenhum atributo artístico as coisas que risco ou colo, mas elas esboçam minha sinceridade porque ninguém até hoje me provou que essa “verdade” que insistimos em viver é a ideal. Tudo que é abstrato é irmã rebelde dessa “realidade” que não passa da representação reduzida do tudo ou do nada...Aliás, o que não tem forma é mais digno, desprovido de ordens, categorias. Mas, o que tem forma? Forma baseada em que? Dar a minha deformidade é de certa forma legitimar também essa preguiça das coisas estabelecidas na grande esteira da mesmice. Muitos esqueceram que essas camadas determinantes são invenções estúpidas e que confirmam a impotência humana diante do vácuo do absurdo. Muitos vivem apenas uma possibilidade...Sou um que percebeu o quanto medíocre é esboçar rebeldia sem bases sólidas. Niilismo por nada é uma coisa derrotista e sinto que alguns de meus gritos são mimados e sem eco...Reconheço...Aplaudo os sonhadores, criminosos & verdadeiros apaixonados e tudo que dança no escopo da complexidade, pois seus olhos fitam uma luz além do concreto, além do que “tem que ser”. Quando era criança brinquei num gramado de um hospício & vi que presenteavam seus internados com seus ossos & doses. Queria ter falado a cada “loucos” que são anjos com peles bordadas em negro & que estão em queda livre à essência e ao amor. Boca seca & olhos vermelhos – sou um silencio entrelaçado em escombros.

sábado, 31 de outubro de 2009

Christian Death (extraído do livro Goth Chic – Gavin Baddeley - 2003)


Da mesma forma que o glam rock cruzou o Atlântico rumo aos Estados Unidos da década de 1970 para transformar-se no glitter rock, o gótico também foi exportado para os americanos no inicio dos anos 1980 – a variação local do gênero foi chamada de “death rock”. Como Don Bolles descreve em Retro Hell, Los Angeles logo se tornou o lar de clubs simpáticos que obedeciam ao estilo gótico. O fenômeno teve início como uma casa noturna chamada Fetish e culminou em lugares como Scream, Helter Skelter, The Crypt e Zombie Zoo.

A banda mais influente relacionada com essa cena é o Christian Death, que, como o Bauhaus, sua contraparte britânica, foi fundada em 1979. O principal arquiteto da banda foi Rozz Williams, um habitante de Los Angeles que, na época, tinha apenas 16 anos – um talento inquieto e genial que se extinguiu com a mesma rapidez com o que brilhou (Rozz Williams não era o nome verdadeiro do cantor – auspiciosamente, o pseudônimo fora tomado de uma das suas sepulturas preferidas no cemitério local). O nome da banda – em parte, uma corruptela de Christian Dior – também refletia a rejeição do cantor a sua educação religiosa e, à medida que o Christian Death passou por várias formações, a temática anti-religiosa permaneceu constante. Mais tarde, a banda afirmaria que não atacava os ensinamentos de Jesus, mas os membros da Igreja que perverteram o credo por ele pregado para satisfazer os próprios desejos. O nome da banda e o logo em forma de cruz foram baseados na observação de que o cristianismo, que se propõe a ser a religião do amor, adota como símbolo o mecanismo utilizado para executar o seu messias.

A controvérsia inerente ao nome da banda foi uma espécie de tática de choque diferente daquelas empregadas pela cena death rock. Na verdade, o rótulo “gótico” é muito mais apropriado nesse caso. Enquanto seus companheiros do 45Grave (que receberam o apoio do Christian Death em sua primeira apresentação ao vivo) buscavam inspiração em cineastas responsáveis por produções de horror de baixo orçamento como Roger Cornan e Ed Wood, as letras do Christian Death revelavam influencia de Poe e Baudelaire.

Da mesma forma, o som atmosférico do Christian Death tinha mais a ver com os experimentalismos pós-punk de seus contemporâneos ingleses do que com o rock demoníaco dos Misfits. Até mesmo na aparência, os cabelos compridos e pintados com uma tintura preta como corvo, as bijuterias prateadas, as meias arrastão e as roupas de baile pretas utilizados por Williams o colocavam no mesmo grupo que os sinistramente andróginos góticos europeus, em vez de identificá-lo com o estilo “todo dia é Halloween” de seus companheiros americanos. Os vocais de Williams também exibiam os tons barítonos tão admirados pelas bandas góticas – na verdade, a voz do cantor às vezes parecia mais inglesa do que americana. O fato de Rozz afirmar que não tinha a mínima idéia do crescimento da cena européia torna esses paralelos ainda mais surpreendentes.
Entretanto, como muito de que é brilhante, o porvir foi repleto de atribulações e controvérsia. Na verdade, a confusão teve inicio quando o Christian Death fragmentou-se não muito tempo depois de lançar seu primeiro disco. Essa foi a formação inicial da banda, mas o futuro ainda guardava mais surpresas – o Christian Death surgiu novamente quando Williams juntou-se ao guitarrista e cantor Valor Kand, ex-membro do Pompeii 99, outra banda dark “alternativa” vinda da Califórnia.

Pouco depois da nova formação do Christian Death, a banda mudou-se para a França, o que permitiu que Williams absorvesse a atmosfera de Paris, a cidade que foi lar de tantos de seus heróis decadentes um século antes. Eles gravaram Catastrophe Ballet no Rockfield Studios, no País de Gales (o mesmo estúdio que recebeu o Bauhaus para a produção dos discos The Sky’s Gone Out e Burning from the Inside). Esse álbum, lançado em 1984, apresenta um som mais suave, multifacetado, de uma beleza sombria que confirmou a reputação cult conquistada pelo Christian Death entre o crescente público gótico. O retorno da banda aos Estados Unidos resultou em Ashes (1985), o ponto alto da formação clássica da banda, onde o misticismo pretensioso de Kand e a poesia envenenada de Williams enredaram-se, compondo um efeito sinistro. Esta também foi a ultima gravação de Williams como essa versão do Christian Death.
Inicialmente, a separação foi amigável, com Williams interessado em explorar novas direções. Entretanto, a essa altura o Christian Death estava se tornando uma verdadeira fábrica de dinheiro. No fim da década de 1980, na companhia da cantora Eva O., que fez backing vocals dos primeiros trabalhos da banda (os dois acabaram casando em 1988), o fundador da banda, começou a se apresentar mais uma vez com o nome Christian Death, Esse acontecimento enfureceu a ala que estava ligada à Kand, que insistia que Williams deveria pagar direitos a eles pelo uso do nome da banda. Os fãs ficaram confusos ao ver dois Christian Death rivais excursionando no início da década de 1990 e muitos lançamentos diferentes. A obsessão de Kand pela religião esotérica e pelo misticismo parecia impenetrável para os que conheciam o Christian Death através da figura de Williams. Essa rivalidade separou os extraordinariamente fanáticos fãs da banda da mesma forma que separou seus membros.

Muitos discos lançados por Williams nessa época ainda possuem resquícios de desespero, embora, mesmo assim continuem trazendo algumas pérolas – como o épico Path of Sorrow (1993), que o cantor descreveu como seu disco do Christian Death preferido. “Eu liguei para Rozz”, explicou Kand para revista Terrorizer em 2000. “Ele me disse que precisava do dinheiro. Não pude discutir porque Rozz fez suas articulações para registrar a banda no nome dele, mas essa não foi uma atitude justa”. A resposta de Kand foi continuar com seus próprios discos do Christian Death, todos pomposamente pessimistas, tentando estampar, de uma vez por todas, sua marca criativa na banda. Com um conteúdo inflamável, combinado com capas que atraiam a censura (como uma imagem de Jesus injetando heroína, no álbum Sex and Drugs and Jesus Christ, de 1988, ou as suásticas de All The Hate, lançado no ano seguinte), Kand expunha de forma pretensiosa e provocante suas opiniões a respeito de sexo, morte e religião.

A confusão foi dispersa da pior maneira possível quando Rozz Williams tirou a própria vida, enforcando-se em seu quarto em 1º de abril de 1998. Os amigos mistificaram os motivos do suicídio do cantor. Entretanto, uma avaliação superficial de seu legado artístico revela uma alma bastante conturbada, cujo dom criativo teve um preço terrível – a capacidade de enxergar a escuridão do mundo com uma dolorosa clareza. Como muitos de seus heróis decadentes, o cantor encontrou conforto nos narcóticos, e o mesmo vício em heroína que ajudou a inspirar suas apresentações espantosas, onde recitava poemas como Whorse’s Mouth (1996), corroeu seu espírito.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

marginalidade do moderno

E no final das contas a urgência da cidade te leva a um banquete vertiginoso onde se perde por vários instantes (e para muitos, completamente) a sutiliza da beleza. A bondade vira um ato de excentricidade “inferior”, então é descartada, como se fosse um espécime muito frágil diante de uma carga de disputa doentia. Ou melhor, vira combustível a um mercado insano para aqueles que acham que ela deva ser comprada até mesmo em prateleiras virtuais. Esses anseios absurdos tratam o silencio e a calmaria como adorno de uniforme de um louco. Então, no mundo atual, é preferível marchar violentamente ao alcance de uma estranha “felicidade” que alguns acreditam estar escondida em meio a fumaça, barulhos mecânicos, dose & mais doses de remédios. Ah se muitos soubessem que a imperturbabilidade é base da contemplação e o condutor do amor perdido a tanto entulho... Amar ou ser amado não é mera recompensa, não é condição calculada. De qualquer forma, e infelizmente, o delírio cosmopolita (o torpor da ilusão violenta) é uma prova de fogo onde se busca através do mal necessário a realização do seu bem nece$$ário.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

catastrophe ballet


As formas estabelecidas ao corpo são como um crime planejado contra o espírito.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

início

O ruim do outro dia é não poder compartilhar os sabores e cheiros. Mas esse só foi o começo.

sábado, 3 de outubro de 2009

saints are down

Se Camus acha Lautréamont um revoltado mimado, o que seriam então os santos e os mártires? Pedir amor através do autoflagelo não me parece um erro tão grave, já que há ai uma afirmação de fé paradoxal, incondicional e suprema. Há um ponto de intersecção em todos os extremos. Mesmo o mais cético recorre aos sentimentos mais brandos da alma. Estamos todos no mesmo barco...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Guerre Froide (editado originalmente no meu Junkeria Nefasta)

Um dos fenômenos mais comuns em épocas que a recessão criativa se acentua, é o apelo retrogrado de muitas áreas da arte. A febre eletro revivida no início dos anos 2000 e as insinuações da cold wave, ainda estão em alta, especialmente em modelos dirigidos na nova cena indie. Foi de olho nisso que os parceiros Yves Royer (vocals) e Fabrice Fruchart (guitarra/teclados) viram que algo do passado estava mal-resolvido e era preciso reescrever esse epílogo.

Talvez o estimulo desse revival também tenha sido dado em 2004, quando o selo alemão Genetic Music decidiu tirar do anonimato o único rebento em vinil do Guerre Froide – um EP contendo quatro canções. A memória resgatada no cd não continha nenhuma faixa extra e sua arte, obviamente em menor escala, continha uma réplica do pôster que vinha em sua edição original.Os admiradores desse tipo de som sentiram-se mais instigados do que totalmente satisfeitos com esse agrado. A procura de mais músicas em mp3 provenientes das duas raríssimas tapes viraram febre entre os aficionados nos fóruns de especializados. O Guerre Froide ganhara então o status de cult. Antes póstumo do que nunca...

A banda iniciou suas atividades em 1980 e era formada por Yves (que no fim dos anos 70 integrou diversas bandas punks como Stress e Banlieue Nord), Fabrice, Patrick Mallet (ex-Skniks, baixo) e Gilbert Deffais (programação). Como muitas bandas de sua época, agregava a poesia, as artes e a tensão bélica pós-Segunda Guerra (que inspirou seu nome) dentro de um som meio tosco, mas carregado de climas dirigidos por um baixo quase distorcido de tão grave e bits secos. Soava simples, introspectivo ao mesmo tempo agressivo. Essas combinações de “impacto” transcendiam com exatidão toda aquela névoa existencialista que há décadas pairou sobre a juventude francesa.

Após bem sucedidas apresentações nuns buracos nos arredores de sua cidade natal, Lille (situada na fronteira com a Bélgica), onde reunia um significativo número de fiéis admiradores, a banda partiu para a gravação da primeira tape – “Cicatrice”, editada pelo pequeno selo de Yves, o Cryogénisation Report Tapes.

No ano seguinte, Mallet debandava e dava lugar a Jean-Michel Bailleux. Uma nova integrante foi convocada: Marie-José Deffais entrava para agregar novos elementos eletrônicos com seu sintetizador analógico. Sua sonoridade ganhou um aspecto futurista-primitivo; minimalista e mecânico, o que pode ser comprovado no seu 12” homônimo de 1981. Esse som cru, repetitivo e monótono despertou atenção de muitos da mesma forma instantânea que durou a própria banda.

Após o desmembramento do Guerre Froide, Yves andou pelo underground tocando com o Gegenacht, banda com orientação mais industrial e performática. Uma sessão de estúdio e uma presentação ao vivo foram compiladas para a tape "At Home!" lançada em 1984. Era mais uma edição humilde da Cryogénisation responsável por outra fita do seu projeto posterior, o Pour L'Exemple que marcava retomada da sua parceria com Fabrice Fruchart. Esse projeto receberia mais atenção que os anteriores, durando de 1986 a 1992, chegando a produzir um EP também muito disputado pelos colecionadores. Musicalmente, essas investidas mostravam quase a mesma linha; ritmo marcial encoberto por um clima deliciosamente decadente.

Depois de anos de completo silêncio, o duo decidiu continuar a trajetória do Guerre Froide. Estimulados pela aclamada reedição do seu único EP, eles assinaram com o selo Brouillard Définitif e gravaram finalmente um álbum completo - "Angoisses et Divertissement". Para preencher seu line-up eles recrutaram um novo baixista: Samuel Druon. O cd compõe-se essencialmente de canções gravadas entre dezembro de 2006 e março de 2007. O álbum possui homenagens a dois grandes escritores do século passado como Antoine de Saint-Exupéry em "Saint-Ex" e Arthur Rimbaud com "L'Eternité" assim como readaptações de antigas canções como "A Corps Perdus" do Pour L'Exemple, das clássicas “Demain Berlin” (aqui com o subtítulo de “Zum Ende”) e "Romance", ainda uma reprise de “La Chanson d'Ian”, tirada da demo de 1980.

O lançamento chega como consolo pra os fãs e, como dito acima, algo tinha que ser feito para concluir esta fria fábula, porém esperamos que seu desfecho definitivo ainda demore a acontecer.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

um pouco de transcendência da espécie & amor

A Supressão do ser é a supressão do Masculino-Feminino. Não haverá mais nada disso. Nem mais Pai-Mãe. Contração de um Divisor comum: Satã. O Espírito Santo foi o Macho: esse morreu para sempre. (Antonin Artaud)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

j'e t....


Do you know you're beautiful
Do you know you're beautiful
do you know your beautiful
You are
Yes you are...

sábado, 26 de setembro de 2009

Tolstoi


Está em meu poder servir a Deus ou não o servir. Servindo-o, acrescento ao meu próprio bem e ao bem de todo o universo. Não o servindo, abro mão do meu próprio bem e privo o mundo do bem que estava em meu poder criar.

madricidio

As mães deveriam parar olhar para gente como se fossemos coisas doentes.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

nada

O que eram aqueles murmúrios? Pedidos para resignar o passado?Alguém já dizia que nascemos póstumos. Lamentos não curam...Eu sempre evito a explosão & acabo me cortando em lágrimas. Entrego-me profundamente a navalha...Eis a metralhadora do antagonismo mirada no meu peito.(O medo é constante).Como eu queria parar este corpo ansioso....

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Christian Death - The Drowning (tradução livre)


Por três dias estive de pé
Por três dias estive de pé
Por outros seis fui abatido no chão
Incisões não podem penetrar em meus pés
Provocar tensões, fazê-los escorregar, deixá-los dormentes
As mãos se mantiveram atadas à pele sem carências
Rasgada, oculta, invocadas em silêncio

Você, em habitações mudas
Você, num sono de sarjeta – amor
Você, nasce para ser morto – luvas enfaixadas
Você vestindo filhas e filhos
Assim como você – eu estou despedaçado e frágil
Assim como você – estou provando meu coração pela primeira vez
Assim como você se alimentando num breve descanso
Assim como você – deixei meus olhos distantes para trás
Pedindo atenção e ainda me afogando

Repouse no oitavo dia
Repouse no oitavo dia
Fui arrastado de volta ao primeiro
Dedos indelicados enfraquecem meus olhos
Eles choram, espreitam, se debatem cegamente
Não há sanidade para que eu volte a ficar de pé

Estou num quarto vazio
Estou incendiando a formalidade dos livros
Estou perdido com você na cama
Quebrando os espelhos para por fim em tudo que já vi

Assim como você – eu estou despedaçado e frágil
Assim como você – estou provando meu coração pela primeira vez
Assim como você se alimentando num breve descanso
Assim como você – deixei meus olhos distantes para trás
Pedindo atenção e ainda me afogando...

(Rozz Willliams)

domingo, 20 de setembro de 2009

Terrapin (Syd Barrett)


Eu realmente te amo, e eu quero dizer você
A estrela sobre você, azul cristal
Bem, ah querida, eu estou perdendo meus cabelos por você...

Eu não te veria, e adoraria te ver
Eu vôo por cima de voce, sim eu vôo
Bem, ah querida, eu estou perdendo meus cabelos por você...

Flutuando, trombando, narizes esquivando um dente
As barbatanas, um lugar cheio de luz
As presas ao redor do palhaço
Está escuro la embaixo a rocha esconde tudo
A luz do sol é boa para nós

Porque nós somos os peixes e tudo que fazemos
Nadar de um lado pro outro é tudo que fazemos
Bem, ah querida, eu estou perdendo meus cabelos por você...

Flutuando, trombando, narizes esquivando um dente
As barbatanas, um lugar cheio de luz
As presas ao redor do palhaço
Está escuro la embaixo a rocha esconde tudo
A luz do sol é boa para nós

Porque nós somos os peixes e tudo que fazemos
Nadar de um lado pro outro é tudo que fazemos
Bem, ah querida, eu estou perdendo meus cabelos por você...

Eu realmente te amo, e eu quero dizer você
A estrela sobre você, azul cristal
Bem, ah querida, eu estou perdendo meus cabelos por você...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

vômito

Será que ele nunca venceu uma guerra? Sim, aquelas marcas não simbolizam um rendimento...Talvez representem um alivio, algo superado, como troféus talhados em pigmentos. Não são adereços simples, mas que lhe custaram muito sangue e prazer. Alguns códigos são catástrofes infiltradas na pele, aromas & atos mágicos. Ele já visitou os mais os mais lodosos terrenos – uma lição angustiante; os primeiros esboços – regentes de uma anestesia permanente.

sábado, 12 de setembro de 2009

assim...

Premature Ejaculation envolve o uso de fantasias e sonhos desde a reconstituição do real ao simbolismo, do figurino até a filmagem. Não há limite, regra, sanidade; exibição da "pessoa-objeto-humano-sexualidade abertamente dolorida". A realidade da morte antes do nascimento, o sonho consciente, a violência, a beleza e o resultado deste sonho. A percepção de que não somente performance é uma seqüência de sonhos, mas de que a vida depois da morte também é esta seqüência, esta é a prova definitiva da mente, através desta performance nós somos libertados, liberdade é a capacidade de usar toda a mente de uma pessoa, a realidade do subconsciente, a mais precoce de todas as ejaculações. Tire a jaula de seu esqueleto! Apontem e fogo!
(Rozz Williams)

história do amor

A angústia seria mais um véu espesso (retalhado e sedutor) que cobre a dúvida? "A História do Diabo" do Vilém é agora um dos meus instrumentos mais precisos para a tentativa de corrosão de tantas perguntas. O livro deixa diante do abismo de frases mágicas e lógicas vindos num pacote que tem lá suas doses propositais de tensões. Tal brutalidade que serve muito mais que uma simples anestesia para as nossas inquietações; é um portal cristalino e poético mesmo que haja o argumento a poesia possui seus fios defeituosos que re-decodifica o que se estabeleceu o que é "real" - na verdade é truque vaidoso de nossos desejos e ele se utiliza deste recurso de forma muito sóbria como quem não se contaminou; "quero sentir vontade" para a possível felicidade que são fumaças perfumadas e raras que entrelaçam nossas narinas e nos levam a incertezas deliciosas e gozos profundos. Este tratado nos trás a consciência objetiva que o mundo, "deus" e "diabo" e as coisas são frutos de nossos mais extremos anseios que estão ai para concretizar literalmente as vertigens que camuflam este tedioso mundo que carece de um convincente significado, pois já é fruto do absurdo total que foi a criação do universo. Somos Deus, somos diabo, maestros defeituosos, mas com uma posição privilegiada e apaixonada (??) no caleidoscópio interpretativo da existência. Tudo ao nosso redor é prova disso, basta sintonizar-se nesta gosma (Terra) que consome sua própria pele afim de ser um só corpo, unicelular, como se quisesse se calar prazerosamente para sempre. É loucura sendo comprimida à zero, como o vazio é em seu estado bruto.
Sei que sou um tremendo tolo nestes pensamentos. Sou um feto do que já foi tratado em linguagem (ou entulho), mas me instiga e surpreende de forma muito honesta.
Prévias conclusões me dão este prematuro sinal: só contempla realmente a vida quem já desceu seus mais obscuros e lamacentos degraus que nada mais são que adubos sinceros. Depois de relarmos no que chamamos de morte passamos a respirar com mais vontade, pois enamoramos por alguns instantes as caricias do silencio inalcançável ou, em outras palavras, o nirvana por meio daquilo que poucos conseguiram traduzir: o amor, a extensão mais nobre de todo apetite. Depois que tomamos consciência disso, queremos noticiá-lo ao mundo por meios absurdos, gulas, dorzinhas, grunhidos e luxúrias que tomam cores e formas em nossos corpos e na natureza, aromatizados e
genuinamente dementes marchando paradoxalmente para a extremidade(útero).


"E se você notar o demônio em você
O anjo em mim
Jesus em você
O diabo em mim
"

(Echo & The Bunnymen - Angels And Devils)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Shadow Project - poetry


Exausto, ele cai na cama.
Enrolado num entulho, o local do enterro.
Perdido num embaraçoso desmaio,
Ele permanecia deitado ali apreciando a derrota
- A simpatia o deixou imóvel -

Quando a fumaça dissipou
Ele rezou para que alguma coisa acontecesse

A luz de uma vela de aniversário
Extinguiu-se em nuvens de olhares distantesde prédios abandonados
Que começaram a chorar
Confundindo uma confortável ilusão

"Se eu amei a praga exterior,
Eu imploraria para ser libertado.”

Usando suas mãos,
Sua própria carne pneumática
Mediu sua seringa e ateou fogo ao próprio corpo.
E um som horrível ecoou na parede,
Deixando um rombo no topo de sua cabeça

Observou que sua mão esquerda,
Poupada pela morte,
Feriu seu peito
Punindo a pele negra da sua alma

Caído na calçadaUm aço liso inoxidável esticou-se
Na forma de uma pesada esteira de fábrica que estendeu seus pecados
- Seu corpo não podia controlar o medo profundo
Do assassino que o mirava-

Com respiração ofegante,
Ele apanhou com muletas
E foi violentado por sua própria sexualidade
Este homem é um símbolo da força
- Um legado da hostilidade e da verdade -

Uma desculpa abafada permanecia sussurrando
“O humilhado morrerá.
Morre como se congelado
Imobilizado contra o chão”

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

poeta negro (Antonin Artaud)


Poeta negro, um seio de donzela
te surpreende poeta amargo, a vida borbulha
e a cidade arde, e o céu se forma em chuva,
e sua pluma arranha o coração da vida.

Selva, selva, os olhos formigam
nos pináculos multiplicados;
cabeleira de tormenta, os poetas
montam sobre cavalos, cachorros.

Os olhos se enfurecem,as línguas giram o céu...
flui as narinas como de azul leite materno.
estou suspenso em suas bocas
mulheres, duros corações de vinagre.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

drowning like the garden

Na ultima tarde, um som seco parecia ser o condutor dos raios amarelos daquele sol já cansado. Uma velha curvada trilhava a plantação morta enquanto a moça debruçada na janela era tomada por um tédio suave.
Apenas o vento opaco borrava aquele cenário – sopro que tecia um eterno acordo com as mais estranhas memórias. A distancia desenhada no horizonte embalava a saudade. “Estarei sempre a sua volta. Eu voltarei...”.
De onde vinham essas palavras anestesiantes? O cativo crepúsculo impedia qualquer suicídio...
Mesmo no auge da nostalgia, não é delicioso pensar que algum amor amortiza nossa queda?
Permanecer é vaidade.

sábado, 29 de agosto de 2009

sonido


E a taba, como muitos sabem, nos proporciona bons momentos de contemplação de sons, livros, filmes...Semana passada acabei "acidentalmente" compilando um cd temático "Cadavres Exquis". Ainda não sei se vou colocá-lo aqui para download, mas distribuirei poucas cópias. Enquanto não disponibilizo acredito que muitas músicas (a maioria na verdade) são fáceis de encontrar na rede. Pela capinha e pelo set dá pra ter uma idéia do que tem embalado algumas tardes e noites "perigosas" deste blog.

1. Satin Wall - Dans le Profondeurs (4:00)
2. Die Vision - After The Sunset (3:49)
3. Haunted Staircase - Something For The Children (A New Kind Of Lullaby) (4:35)
4. Siouxsie and the Banshees - Slap Dash Snap (3:41)
5. Frustration - Waiting For The Bad Things (2:46)
6. Orchestral Manoeuvres In The Dark - Of All The Things We've Made (3:25)
7. Bene Gesserit - Nobody can know (2:49)
8. Theatre of Hate - Grapes of Wrath (4:12)
9. Fatal Gift - So Dear So Cheap (2:50)
10. D.Stop - Mission Suicide (3:14)
11. The Comsat Angels - My Mind's Eye (3:27)
12. Therese Racket - Eurockéenne (3:39)
13. Cinema 90 - In ultra violet (3:39)
14. The Names - Discovery (4:04)
15. ExKurs - Warten (2:55)
16. The Chorus - Barbarossa (3:50)
17. 9 Circles - Miss Love (3:16)
18. The Chameleons UK - Everyday I'm Crucified (3:31)
19. The Passions - The Swimmer (3:31)
20. Nico - Le Petit Chevalier (1:13)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

weekend n' roll


Com um clima de "vou dar um tempo da noite", este final de semana reserva uns programinhas bacanas para os noctívagos de plantão. Amanhã, eu e o Ghá faremos, talvez, nossa última discotecagem de pós-punk no Sexta Esquenta no Drops Bar para comemorar o aniversário da Tati Ribeiro, DJ residente do projeto que tem com seu namorado, o Bezzi (fala Fofó!). A seleção da "A Dark Design" será bem semelhante a apresentada no Astronete há alguns meses. Quem curte The Fall, Echo and The Bunnymen, PIL, The Cure, Nico, Frustration etc vai sair satisfeito. Para aqueles que não conhecem, o Drops já faz parte do roteiro de pré-baladas por ter se consolidado como uma agradável opção de encontro de amigos e conhecidos num ambiente "festa em casa (vitoriana)" com boa música e um cardápio de primeira.


Sexta Esquenta
Happy Hour
21h30 às 3h30
Sexta 28/08
R$ 15,00 de entrada (sem lista) ou R$ 10,00 de entrada (lista)
Lotação: 150 pessoas
Drops Bar - Rua dos Ingleses, 182, em frente ao teatro Ruth Escobar


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Sábado rola mais uma e aguardada edição do Let's Goth (subprojeto do Let's Rock) na Toy Lounge. Idealizado pelo DJ Humberto Luminati, a festa é uma das poucas e mais dignas do gênero que acontecem ainda em SP. Para quem curte crossover, industrial, dark/goth metal, post-punk e death rock este é o lugar - gente cagada e radical não faz parte do repertório, pois, assim como o Drops, o seu conceito é do tipo "vamos reencontrar os amigos e nos divertir" e seu clima clean (but "dark") não comporta gente imbecil e radical que ainda insiste com aqueles velhos papos que exalam vinho de quinta....Esta edição também contará com um pocket show do White Light Lametta, o mais novo projeto eletro dos"Brides" Julia Ghoulia e Corey Gorey (NY) que fechará sua pouca divulgada tournezinha que passou por alguns clubs da cidade durante o mês de agosto. Será no mínimo curioso!

mais infos aqui: www.fotolog.com/humb_lumi

sábado, 22 de agosto de 2009

labyrinth


Diga que este é o mesmo sol girando no mesmo céu
Diga que estas são as mesmas estrelas fluindo na mesma noite
Diga-me que este é o mesmo mundo girando pelo mesmo espaço
Diga-me que este é o mesmo tempo tropeçando pelo mesmo dia

Então diga que esta é a mesma casa e nada na casa mudou
Yeah, diga que este é o mesmo quarto e nada no quarto é estranho
Diga-me que este é o mesmo garoto queimando na mesma cama
Diga-me que este é o mesmo sangue penetrando na mesma cabeça
Diga que este é o mesmo gosto que se tira do mesmo beijo


Diga que você é a mesma,
Diga que você é a mesma e sempre foi assim
Diga que você é a mesma, diga que você é a mesma e sempre e para sempre será
Diga que você é a mesma

Diga-me que é tudo igual
Isso sempre foi assim
Mas se nada mudou, então isto deve significar...

Mas o sol está frio – o céu está erradoAs estrelas estão negras – a noite se foi
O mundo está imóvel – o espaço está parado
O tempo acabou – o dia está derrubadoA casa está escura – o quarto está cicatrizado
O garoto está morto – a cama está dura
O sangue está grosso – a cabeça está estourada
O gosto está seco – o beijo é sede

E você não é a mesma, você não é a mesma
Nào, isso nunca foi assim
Você não é a mesma, você não é a mesma
E isso nunca é, realmente
E você não é a mesma, você não é a mesma
Nào, isso nunca foi assim
Você não é a mesma, você não é a mesma
E isso nunca é, realmente
Oh, sempre foi assim
Tudo deve ter mudado
Ou sou eu...

Extraído do livro Goth Chic de Gavin Baddeley (2003)

Alguns têm cotado os obsessivos trabalhos solos de Nico, lançados logo depois que ela deixou o Velvet Underground, em particular The Mable Index (1969) e The End (1974), como os primeiros discos autenticamente góticos. É certo que o clima evocado pelos arranjos dispersos e pela harmonia fantasmagórica – que o escritor Dave Thompson descreve como as “bruxuleantes excentricidades da cantora colocadas sob a luz” – possui uma atmosfera gótica. As gravações de Nico eram, novamente de acordo com Thompson, “essencialmente um ritual catártico, melhor experimentadas com as persianas bem fechadas e as lâmpadas lançando sombras sinistras na parede”. Por volta de 1981, a enigmática cantora notou que havia muitas garotas que se vestiam como ela, usando saias pretas esvoaçantes e botas de hipismo pontudas. Essas primeiras meninas góticas receberam o apelido de “Nico-teens”. Então, não era de se admirar que o Bauhaus, os pioneiros do rock gótico, fizessem de tudo para realizar um cover do hino às drogas do Velvet “I’m Waiting for the Man”, gravada por Nico, já uma verdadeira lenda perdida, presa nas garras de um vício debilitante e prolongado em heroína, “Nico era gótica”, confirma o vocalista do Bauhaus, Peter Murphy, “mas ela era o gótico de Mary Shelley, enquanto todos os outros eram o gótico dos filmes da Hammer. Ambos faziam Frankeinstein, mas Nico era real”.

Segundo Nico, "The Marble Index tem a ver com a minha ida a Berlim em 1946, quando era bem pequena e vi toda a cidade destruída. Gosto do império decadente, a imagem do império decadente”. A palavra “decadência” insinua uma prazer degenerado, mas também uma imagem comum na arte decadente. O mesmo ocorreu a Nico, em ambas as avaliações. Suas lembranças sombrias da Berlim arruinada, antes a cidade mais pecaminosa do mundo, são destiladas em The Marble Index através dos vocais germânicos caracteristicos da cantora. Após o sutil folk-rock de seu disco de estréia solo, Chealse Girl, de 1968, The Marble Index marcou a descida de Nico ao território problemático que a própria artista escolheu para si. Autenticamente estranho e hipnótico, o som espectral dos vocais harmoniosos e friamente taciturnos brandia um sinistro feitiço negro que afastou muita gente, mas a estabeleceu como uma artista cult. As apresentações ao vivo de Nico também eram imprevisíveis e melancólicas. Ela rejeitou uma apresentação enigmática que a denominava como um “membro da Sociedade Secreta” em um show em 1979, em Nova York, preferindo ser apresentada como “um possível Fantasma da Ópera”. De acordo com um fã que estava na platéia, ela chegou a desprezar a própria música, qualificando-a em sua fala germânica arrastada, como “um rréquiem, uma música funerral”.Mas um número suficiente de pessoas foi atraído por uma atmosfera fria e sustentou a existência precária e a carreira fonográfica errática de Nico. O clímax de seu primeiro ciclo e réquiens oriundos diretamente do lado negro veio em 1974, com o apropriadamente nomeado The End. A faixa título era um assombroso cover da saga surreal de patricídio e incesto dos Doors, gravada como tributo a Jim Morrison, o poeta e vocalista da banda, que morrera três anos antes. Morrison foi uma das várias lendas do rock quem Nico esteve romanticamente ligada, descrevendo-o como sua “alma gêmea’. Ambos compartilharam uma relação doentiamente confortável com a morte. “A vida era um tédio para Nico”, disse Alan Wise, que empresariou Nico na década de 1980, “ela costumava dizer que estava a apenas dois minutos da morte”. Em 1967, de acordo com o produtor do Doors, Paul Rothchild, Morrison “levou Nico para o alto de uma torre, ambos nus, e Jim fora de si de chapado, subiu no parapeito e caminhou por ele, a uma altura de centenas de metro. E lá estava aquela estrela do rock, no auge da carreira, arriscando a vida para provar a uma garota que a existência não valia nada”.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ao ritmo morto-vivo


No começo dos anos de 1990 o casal de "vampiros" Ady (vocais) e Barom Garces (sintetizadores) formaram o Chateau Royale. Na época, poucos em Londres ainda davam atenção à música gótica e formar uma banda do gênero por lá (seguindo a pauta de alguns estereótipos) era quase como pedir para ser vítimas das mais cruéis piadas. Por esse motivo, talvez, a sua carreira trilhou um caminho muito tímido.
Seus dois primeiros registros foram lançados em k7, entre 1991 e 92. Depois disso, decidem criar seu próprio selo, Christus Release, por onde editaram dois EP's:
- In Morning (1994) - um trabalho ainda amador, com sonoridade meio “demo-tape”, onde as três faixas exploram climas medievais através de melodias sintéticas. Seu encarte apresenta a seguinte descrição: “Aqui estamos te presenteando com nossa fruta proibida – In Morning - dividirá com você as primeiras lágrimas da noite...”.
- Angel (1995) - traz vocais quase sussurrados guiados por um arranjo cold wave. Destaque para a faixa "Christiane F", onde a personagem é tida como morta, ressuscita e tenta lembrar-se quem foi.
Chateau Royale desapareceu sem deixar pistas...Sua música pode ser comparada à iluminação discreta do interior de uma catedral cujas alegorias não despertam somente angústias, mas também um estranho conforto.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

hóspede


O estomago remói e aquela história gira...Tediosamente. E você abre e fecha túmulos...A cavidade não tem fim e os corpos...E os corpos são amores como pretexto..

flatus vocis


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Paganismo - por hakim bey


CONSTALAÇÕES POR ONDE dirigir o barco da alma.
"Se o muçulmano entendesse o Islã ele se tornaria um idólatra" - Mahmud Shabestari

Elegbá, o porteiro horroroso com um gancho na cabeça & conchas no lugar dos olhos, charutos negros de macumba & copo de rum – como Ganesh, o deus dos Inícios, garoto gordo com cabeça de elefante que cavalga um rato.
O órgão que sente as atrofias numinosas com os sentidos. Aqueles que não podem sentir baraka(1) não podem conhecer a carícia do mundo.
Hermes Poimandres ensinou a animação dos eidolons(2),a incorporação mágica de ícones por espíritos — as aqueles que não podem realizar esse ritual em si mesmo & em todo o tecido palpável de ser material vão herdar apenas melancolia, dejetos, decadência.
O corpo pagão torna-se uma Corte de Anjos que experimenta este lugar – este arvoredo – como o paraíso – (“Se existe um paraíso, com certeza é aqui!” – inscrição no pórtico de um jardim mongol).
Mas o anarquismo ontológico é paleolítico demais para escatologia – as coisas são reais, feitiçaria funciona, os espíritos dos arbustos são unos com a Imaginação, a morte é um vago desconforto – o enredo das Metamorfoses de Ovídio – um épico de mutabilidade. O cenário mitológico pessoal.
O paganismo ainda não inventou leis – apenas virtudes. Sem sacerdócio, sem teologia ou metafísica ou moral – apenas um xamanismo universal no qual ninguém obtém real humanidade sem uma revelação.
Comida dinheiro sexo sono sol areia & sensimilla (3) - amor verdade paz liberdade & justiça. Beleza. Dionísio o garoto bêbado em uma pantera — rançoso suor adolescente — Pã homem-bode abre caminho através da terra sólida até sua cintura como se estivesse no mar, sua pele incrustada de musgo & líquen — Eros se multiplica em uma dúzia de jovens pastorais nus de Iowa, com pés sujos de barro & musgo dos lagos em suas coxas.
Raven, o trapaceiro do potlatch (4), às vezes um garoto, às vezes uma velha, um pássaro que roubou a lua, agulhas de pinho flutuando num lago, totem de Faísca & Fumaça, coro de corvos com olhos de prata dançando na pilha de lenha — o mesmo que Semar, o corcunda albino hermafrodita marionete de sombras, patrono da revolução Javanesa.
Iemanjá, estrela azulada, deusa marinha & madrinha dos homossexuais — como Tara, aspecto azul-acinzentado de Kali, colar de crânios dançando dançando no rígido lingam (5) de Shiva, lambendo nuvens de monções com sua língua compridissíma - como Loro Kidul – deusa-do-mar verde-jade javanesa que confere o poder da invulnerabilidade aos sultões por meio de intercurso tântrico em torres & cavernas mágicas.
Sob um ponto de vista, o anarquismo ontológico é extremamente nu, despido de todas as qualidades & possessões, pobre como o próprio CAOS – mas, sob outro ponto de vista, ele pulula de barroquismos como os templos da foda de Katmandu ou um de símbolos alquímicos – esparrama-se em seu divã comendo loukoum (6) & acolhendo noções heréticas, uma mão dentro de suas calças frouxas.
Os cascos de seus navios piratas são laqueados de negro, as velas triangulares são vermelhas, bandeiras negras exibindo uma ampulheta alada.

5 – nome que em Cuba se dá a Exu.
6 – conceito sufista, que significa benção, graça, a força vital de toda criação.
7 – Ou H. Trismegisto, mitológico fundador do hermetismo, doutrina ligada ao gnosticismo, no Egito, século I.
8 – Festival de inverno celebrado pelos índios da costa noroeste dos EUA, com distribuição e eventual dissipação dos bens do anfitrião.
9 – O mais importante dos símbolos de Shiva, que tem a forma de um falo, e representa o aspecto impessoal de Deus.
10 – Doce turco.

cantos

Entre muitas máscaras que temos, damos a pior também à aqueles que merecem...assim como as últimas canções. Assisto sua lenta queda - ela alimentou tanto minha vaidade. Eles apenas te ""aguentam", são como muleta de um velho moribundo. Suas alegrias são respostas forçadas às suas genuínas fraquezas...Eu te entendo e gargalho obscuramente. Obrigado por tudo também. Das minhas chagas fiz fortaleza e beleza."It's not a love song - It's the last song for you". Paz...

domingo, 2 de agosto de 2009

permanência


And if I'd the spell to claim your existence
Your clandestine thoughts; your soul's soft persistence
I'd follow the mirror aglow with your image
Your water-grave eyes, and your lingering fragrance

But unknown by you; lost in the shadows

I fade and remain
Love incarnate; mere irreligion
I fade and remain


My kind can dwell with infinite patience
My reverie thoughts can travel great distance
Yet deign I embrace you, with meek adoration
Your fragile humanity rised with contrition

Love incarnate; lost in perfection
You fade and remain
Youthful; timeless; deification
You fade and remain

sábado, 1 de agosto de 2009

folk noire

Ano passado estive em contato com o João do selo português Extremo Ocidente que esporadicamente solta preciosidades limitadíssimas de neo-folk e martial em vinil e em cd principalmente as relacionadas à alguns projetos de Tony Wakeford (Sol Invictus). Uma que me pegou de assalto foi o EP The Affordable Holmes do Orchestra Noir com 29 minutos de gravações inéditas com prensagem de 999 unidades embalado em papel reciclado. Para quem não conhece, trata-se de um trabalho mais "filmico" de Wakeford que reproduz uma sonoridade mais experimental, dando aos instumentos clássicos bases arrojadas à uma música minimalista e ultra-romantica. Este é um mini cd inteiramente dedicado a Sherlock Holmes e em particular à série dos anos 80 com o Jeremy Brett, sendo o tema principal uma cover da banda do mesmo seriado.

Segue a letra e algumas notas do cd:


I saw a maiden by the riverside
Waiting for her lover to come by
She dressed her hair with a golden comb
Love it seemed had gaind the throne

Then he killed her - struck once, then twice
Then he killed her with his knife

From stately mansion to the lowest slum
Love and death beat their drum
Lovers, touch and lovers cry

Then he killed her - struck once, then twice
Then he killed her with his knife

How easily love's wine is spilt
How easily love's vine does will
Then he killed her - struck once, then twice
Then he killed her with his knife
___________

músicos:
Tony Wakeford - double bass, voice, sounds, electronics
M - percussion, sounds, electronics
Guy Harries - flute Richard Moult - piano
Mark Baigent - oboe
Ben Sansom - violin
Alexandria Lawrence - viola
___________________

"Burn out of obssesion"

Não é a vida toda patética e fútil? Sua história não é um microsmo perto do todo? Nós a agarramos. E o que é deixado nas extremidades de nossas mãos? Uma sombra. Ou mais que uma sombra, miséria!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

deeper blue


De repente uma luz rasgou as nuvens daquele dia sem tempo. Sua claridade me trouxe uma inesperada saudade dos olhos tristes da minha mãe - minhas lágrimas extensão da sua placenta?

sábado, 25 de julho de 2009

Nico #3

Mais uma pecinha quase rara pra minha coleção da Nico. Camera Obscura foi o seu último trabalho de estúdio editado em 1985 com a produção do seu fiel patner John Cale. Nele a cantora revela um forte amadurecimento vocal, transitando harmoniosamente entre o minimal wave, jazz e outros elementos/sensações que só se descobre ouvindo. Uma despedida digna e bem obscura. Discão!!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

porco


Vi algumas bitucas e sangue diluído no vazo sanitário. Alguém tinha desprendido um choro ou qualquer coisa ali e logo imaginei “eu tinha que ter feito isso antes”. Ainda havia resquícios daquilo que não foi resolvido e senti que meu peito possuía uma ferida fria que tomava grande parte do pensamento. As cinzas e mancha púrpura na água me faziam pensar num exorcismo imediato. Quando se deseja e não alcança aquilo que é pretendido brota-se involuntariamente um ressentimento escuro nos tecidos das calças...Os sedimentos petrificam, te deixam pesado e as cólicas apontam para uma só direção. Meus ouvidos tomaram forma de ganchos e uma cratera expôs meu coração a uma leve surpresa. Alguém me empurrou para dentro d’água e não havia o que me preocupar; o cenário era muito familiar. Eu estava numa gruta formada pelas paredes da inibição, onde sacerdotes nus devoravam uns aos outros. Eles serviam uma grande minhoca gosmenta que comia fezes extraídas das vitimas esmagadas por pedras enormes (restos de seus próprios excrementos). O Diabo havia aprisionado Deus que agora gozava desta forma cômica e rastejante. Entendi o porque nestes últimos tempos parte das lamentações havia cessado de meu intestino e as vozes que ainda lamuriavam, eram os últimos suspiros deste velho babão que se divertia as custas daqueles clamores tenebrosos. Ele era o grande cúmplice das solitárias e sempre desejou se lambuzar com os porcos. Emergi tendo a pura certeza que a descarga leva ao vertical abismo da fé. Sentei no trono como um rei, acendi um cigarro e caguei de tanto rir.

domingo, 19 de julho de 2009

diabos


Medos deformam...transformam...fazem os choros mais constantes...mesmo invisíveis.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Positive Punk


O positive punk foi um “movimento” quase nulo, mas penso, mesmo com sua efemeridade, foi a melhor designação para as bandas e seguidores dissidentes (ou não) da chamada cena “Crass” no Reino Unido entre os anos de 1981 e 83. Embora os temas tenham um cunho “positivo” (como justificado por algumas bandas que de forma relutante acabaram abraçando o título), sua proposta de escapismo chegava ao niilismo extremo. Essa volta da embriagues mística & psicodélica (já vista nos anos 60) e a espiritualidade seriam formas de esquecer, assumir ou superar a dura realidade da era Thatcher? Eu consigo enxergar o otimismo no desespero e isso é fonte quase inesgotável de inspiração (a dualidade “luz” & “sombra”, “frio & quente” sempre dão bons resultados). A linha que tentava separar essas bandas da trupe de zumbis andróginos com instrumentos empunhados que emergiam em torno do clube Batcave era quase imperceptível. As duas “alas” reinventavam o punk como forma de exteriorizar seus horrores com os mesmos princípios sonoros e estéticos. O UK Decay, Adam and The Ants (primeira fase) e o PIL, entre diversos nomes que chamuscavam pela Europa a fora, antes do Bauhaus, foram talvez as maiores fontes criativas dessa turma que já estava cansada da cartilha anarco-punk; seus integrantes estavam mais abertos às transformações & experimentações que aquele riquíssimo período oferecia. De qualquer modo, mesmo que as duas coisas sejam parte do mesmo balaio, eu tolero mais termo criado por Richard North já que o gótico (super controverso em termos de estilo musical) e o deathrock viraram piadas quando a industria fonográfica vulgarizou seus produtos a fim de suprir o gosto da imprensa e de muita gente errada que acata até hoje qualquer tipo de sensacionalismo. PS: existiu de fato um sensacionalismo em torno do “positive punk” que acabou estampado (vulgarizado?) na capa da New Music Express em fevereiro de 1983. Paradoxalmente essa edição é considerada, em minha visão, como a cartilha da sua própria morte. Esse é o destino de qualquer hype, mas neste caso acho um dos mais dignos dentre muitos criados depois. A propósito vocês acham que o make-up e os penachos do MGMT vieram da onde, queridinhos? A pós-modernidade é de dar pena.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

carta de esclarecimento à uma compaixão (cagando no túmulo 2005-07)

Pois é, eu fui mais uma vítima de sua carência. Você me contou a sua história e abracei uma "causa social". Desperdicei dois longos anos ao seu lado. Você tinha de tudo para se dar bem, mas vamos aos pontos. O seu rosto bonitinho tem uma murrinha e até combina com as apêndices inflamadas de minha cidade. Seu pai é (ou era?) apenas um bom boêmio, exposto a fatalidade incurável da promiscuidade. E você chora por isso? Coloquemos tudo no mesmo plano. Você o idolatra e segue passos deste cristão moribundo - segue os velhos passos luxuriosos, o que não é um problema desde que não se materialize numa patologia crônica de banalidade....Essas paixões em série nunca vão te suprir até que assuma de vez a sua vontade de abraçá-lo e aceitar sua condição adolescente mal resolvida com sede cambaleante pela vida. Eu tomei conhecimento de suas cartas diagonais, seus contatos com alguns "Judas" - porque será que você repreendia minhas "ameaças" tão menos frescas que as suas? Sua escrita têm sangue, comovem, porém não existiria se não fosse esse conjunto de bobagens, ódio e paganismo ingênuo que você faz questão de carregar. Não chore por aqueles que te viram as costas; eles apenas não se comovem mais com suas hipocrisias. Mesmo acompanhada, você não verá o sentido de suas desilusões. Fique bem e longa vida - você encontrará seu lugar e sou sincero em meus votos (hoje entendo a mutação da dor – as reais vontades desembocam na beleza). Ah! Eu perdôo aquele tapa e confesso que nunca me arrependi de ter te presenteado com livros e músicas. Um dia todo mundo acaba entendendo.

domingo, 12 de julho de 2009

Did The Doctor Give You A Pill?


Ele havia chegado à um ponto em que os sonhos não eram nenhuma novidade. As pálpebras não eram mais o limite. Os tentáculos das sensações eram afiados por meditações anestésicas e ilícitas. Não havia mais ao que recorrer a sua volta, pois nada era satisfatório nas coisas táteis. Eu vendo aquele polvo iluminado na beira da praia, decidi penetrar em seu ventre preenchido por um lodo verde que exazalava sexo. O calor úmido acolheu meu cérebro contaminado por coisas que durante a vida o obustruia. Tempo era o estado da consiciência – uma fonte enganadora de lucidez. Não necessitava da permência ou qualquer tipo de luz e escolha. O cessar do tempo me trouxe então o tédio. A comoção de quem não se alimentaria daquilo que conduzia para esse novo estado (a esperança?). Eu quis retornar e isso me fez pulsar no ritmo do coito; ausência e o golpe em seus tubos. O parto também tem suas pausas e só assim se entende a sua sede por sangue em suas mais variadas cores. Ali era o túmulo de músculos talhados por gritos de desordem que estabelecem a imersão dos paradoxos.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

a-morre

O estado selvagem nada mais é que o retorno ao útero. Ser livre é estar preso pelo coração? Me dou conta disso quando flutuo num isolamento agridoce; o que nos separa da morte é apenas um parapeito.

sábado, 4 de julho de 2009

aurora


(...)A gente ter de ter coragem no corpo até para conseguir suportá-lo, não se pode ter aprendido o medo. (...) – e quem quer ser um criador, no bem e no mal, tem de ser, antes de tudo, um destruidor e arrebentar valores(...)
F. Nietzsche

quinta-feira, 2 de julho de 2009

zzzzz!


Penso diante, da certeza, que a canseira entre os humanos é recípocra...Dá pra notar né? Estamos na nova era (mais sufocante) da intolerancia. Por isso, a solidão é só uma continuidade e tenho “gostado”. Baaah!!!

terça-feira, 30 de junho de 2009

“Esquece essa gente!”.

Um dos meus maiores vícios é guardar alguns incômodos e perder a oportunidade de exorcizá-los imediatamente. Eu aparento ser uma pessoa imparcial, mas isso se deve ao fato de eu ter destinado, num passado recente, parte de meu arsenal em debates sem frutos (isso prova que, ao contrário que muitos devem pensar, não guardo muitos ressentimentos – não seria eu possuidor de uma prudência exagerada ou vítima de vampiros?). Hoje abuso de uma indiferença glacial à quem merece. Sempre pago por falar o desnecessário. Continuo errando e dando gratuitamente as estratégias que deveria permanecer no meu íntimo ou que deveriam ser dissolvidas em longas horas de meditação (?). Eu sempre prometo calar-me...Mas, se não fosse esses deslizes, eu me assemelharia a um mudo e surdo, como num período estranho de minha adolescência. Na realidade não me envergonho daquela época e do mesmo modo não seria nada mal retomar aquele involuntário comportamento (mesmo que eu não acredite em repetições de modelo), pois naquela época era muito espontâneo ter dificuldade balbuciar e ordenar as palavras, pois o ato “conversa” era uma obrigação temerosa, uma arma que eu não reconhecia (e às vezes não reconheço). Eu não sentia confortável pelo jeito que uns cagalhões me julgavam fisicamente – eu gostaria de voltar a 16 anos atrás e me abraçar. Pode ser que ai seja uma das origens das algemas em minha garganta. Em parte aquela fase foi boa; eu não era também nenhum santo. Era um rocker estropiado, com uma velha camiseta do Christian Death que roubava discos, matava aulas para encher a cara pelas ruas dos arredores do colégio; perdi o ano escolar naquela zona toda. Não seria bom eu dar rédeas a aquele vagabundo – eu me trairia. Se ele não estive nas extremidades de minha bagagem, eu não teria uma imaginação inquieta; estaria transgredindo as ordens lógicas e agindo como boa parte dos traidores que fingem ter um humor taciturno e um gosto duvidoso adquirido com tanto esforço como autênticos poseurs! Vou eliminando alguns indivíduos à medida que eles vão me mostrando suas mais pobres imbecilidades. Eles hoje me dão sono. Os sinais dos caminhos adequados sopram sutilmente em meus ouvidos. Não é mais preciso fechar os olhos para sonhar. Anoiteço em longos tragos e no momento não sinto muita falta em dividir confidencias com alguém entrelaçado num lençol... Abriremos mais os ouvidos e tentarei falar um pouco de música que me agrada e que, de certa forma, tem os traços pálidos de quem agora escreve ou de quem as toca (quanta redundância...). Deixo ela falar por mim; isso é um vício que tenho em excesso!

domingo, 28 de junho de 2009

à sua receita arrematadora


Alucinada

Nas noites frias (em pleno inverno)
tua lembrança é calor e proteção.
Minha música embala a alma, doce melodia
Que se aloja no coração qual paixão devoradora

Temperatura quarenta graus, que a ti também aquece
vem junto a mim esquece o mundo,
vamos na emoção afogar a lógica e a razão...

Beberemos no copo do amor, esta bebida divina,
ela nos fará irmãos, amigos e amantes,
pois não há união perfeita,
sem o Dom maior do próprio Criador...

Alucinação, levando o sonho à mais linda perfeição,
fazendo os humanos sentirem com pleno domínio
uma inifitésima parte do que é divino...
(Constance Belmar)

sábado, 27 de junho de 2009

voz do nada


A controversa entrada de Nico no Velvet Underground fez com que muitos não acreditassem numa cerreira duradoura depois da saída da banda. A musa alemã de Andy Warhol não era apenas um rostinho bonito e deslumbrado como Edie que, por “forças de compensação”, foi eternizada em “Femme Fatale”. Apesar de algumas roubadas que caiu no inicio de carreira musical por causa de alguns excessos (que fizeram parte integral de sua vida, embora negasse no fim da carreira o uso constante de heroína) e ingenuidade, Nico tinha uma expressividade única e canções inigualáveis que ainda causam torrentes frias e escuras em nossa alma.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

mais presentes e suas notas


Esses eu ganhei do Gheirart. Merciiii!

O Homem revoltado (Albert Camus)

Quando foi publicado pela primeira vez em 1951, O Homem Revoltado valeu a Albert Camus um verdadeiro linchamento promovido por intelectuais franceses encabeçado pelo romancista e filósofo Jean-Paul Sartre. O ataque de Camus aos crimes perpetrados em nome da revolta repercutiu mal, e ele ainda foi acusado de defender a liberdade de forma simplista, privilegiando a questão individual. Foi assim que, por várias décadas, a complexidade de seu pensamento foi reduzida a uma tese de direita.
Stálin ainda vivia, muita ente começava a se desentender com o Partido Comunista, mas apesar disso Camus não podia ser perdoado ao criticar igualmente a violência e o totalitarismo de direita e esquerda. Não podia aceitar a crítica tão forte contra as prisões e os assassinatos perpetrados em nome da revolução. O novo humanismo de Camus – talvez por vezes contraditório, mas certamente sincero – era repudiado radicalmente.
A amargura do consagrado autor de O Estrangeiro e A Peste foi canalizada então em 1956 com A Queda, romance-monólogo de impressionante expressividade e força. No ano seguinte, Camus era reconhecido pela Academia Sueca e recebia o Nobel de Literatura. Ainda assim, suas idéias na chegaram a ser “reabilitadas” pelo que as atacaram. Livro ambicioso que é talvez um dos mais enfáticos e apaixonados libelos antiautoritários já escritos, O Homem Revoltado continuou sendo tratado com frieza e acomodação que critica tão veemente.
Mais de 50 anos depois de sua primeira publicação, com as disputas ideológicas e o questionamento existenciais da humanidade radicalmente deslocados de seus eixos, o livro adquire uma dimensão especial. Não é possível mais ignorar crimes contra a humanidade sejam quais forem seus pretextos revolucionários,
A revolta não desculpa tudo. É assim que o humanismo proposto por Camus revela-se fundamental para aqueles que preferem defender os seres humanos antes de defender sistemas teóricos abstratos. E é por isso e muito mais que O Homem Revoltado é um dos livros mais importantes do século.
(João Domenech Oneto)

trecho:

“Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável; a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes”.

“A História do Diabo” (Vilém Flusser)

Parodiando textos sagrados, Vilém Fusser faz neste livro um longo elogio do Diabo, príncipe tão glorioso que a tantos entusiasmou no decorrer da história humana, em louvor do tantos enfrentaram as chamas” com dedicação ardente. Procura suspender os nossos preconceitos a respeito do Diabo para tentar conhecer esse personagem que identificará com a própria História: É possível a afirmativa de que o tempo começou com o Diabo, que o seu surgir ou a sua queda representam o início do drama do tempo, e que diabo e história sejam dois aspectos do mesmo processo.
Chama de “influência divina” tudo o que procure superar ou negar o tempo, o chama de “influência diabólica” tudo o que procure preservar o mundo do tempo. Concebe o divino como aquilo que age dentro do mundo para dissolvê-lo e transformá-lo em puro Ser, logo, em intemporalidade. Por oposição, concebe o diabólico como aquilo que age dentro do mundo para preservá-lo, evitando que seja dissolvido. Do ponto de vista de Deus, o divino é o criador enquanto o diabólico é o aniquilador – nas do ponto de vista do homem no mundo o Diabo é o princípio conservador e Deus é o princípio destruidor. Cabe ao diabo manter o mundo no tempo, o que nos força a simpatizarmos com ele: reconhecemos no Diabo espírito semelhante ao nosso, e talvez tão infeliz quanto o nosso.
(Gustavo Bernardo)


trecho:

(Capítulo “A Luxúria’ – O Amor ao Ler e ao Escrever).

"3.8.2 É da própria essência do pecado afundar a mente numa torrente de desejos que aumentam à medida que estão sendo satisfeitos. Quanto mais bebe, tanto mais sedenta é a mente pecaminosa. Cada copo que traz aos lábios conta mais uma gosta daquele veneno que lhe aumenta a sede. Atrás de toda amante que abraça Don Juan, estende-se a fileira infinita e sempre crescente de amantes a serem abraçadas. Na boca que beija sente ainda o gosto dos lábios já beijados, mas já está pressentindo o gosto das bocas que estão lá, prontas a serem beijadas. É verdade que toda amante representa um desafio diferente. Cada uma exige uma tática diferente para ser conquistada. Mas de que adianta essa conquista? Serve somente de degrau para a conquista seguinte. Considerações frias e racionais como esta não ajudam, no entanto, ao inebriado a superar a sua sede. São existencialmente improdutivas. Ele se precipita, com ela ou sem elas, sempre mais fundo para dentro do seu pecado."