quinta-feira, 19 de maio de 2011

Revoluções: uma política do sensível


O seminário trabalhará com a relação entre estética, política e história. Não no sentido estrito da propagação das posições de engajamento político dos artistas, mas no da produção de uma política do sensível (ou de uma “partilha do sensível”, para usarmos a expressão cunhada pelo filósofo francês Jacques Rancière).

A idéia de uma política do sensível opera como uma abertura ética, presente em uma obra de arte, que rompe com os lugares-comuns do cotidiano, esvaziado pelo espetáculo dos meios de comunicação em massa. Ao recolher criticamente a tradição revolucionária esquecida, os artistas criam as condições que permitem a produção de novos sentidos comuns, ativos e críticos. Assim, as clássicas revoluções sociais, antes vistas como questões datadas, esvaziadas de sua efetividade política, ganham força novamente.
Local: Teatro Paulo Autran - SESC-Pinheiros - Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros/SP


O Projeto Revoluções é uma realização do Instituto de Tecnologia Social - ITS BRASIL, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, do SESC-SP e da Boitempo Editorial.

Para inscrições e mais informações, clique aqui

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Reefer Madness - "If you want a good smoke, try one of these!"

Um adolescente é condenado injustamente por "matar" a namorada de 17 anos que estava sendo molestada por um maluco (um dos verdadeiros acusados) que estava em seu pico de bad vibe...Festas regadas a jazz com compassos acelerados, gente alucinada por causa do abuso de narcóticos...Você deve estar pensando em alguma manchete destes jornais de quinta categoria sedentos por sangue e audiência noticiando alguma crise de abstinência de crack, cocaína ou doses cavalares de LSD ou ecstasy. Se você pensou isso, errou...É tudo "culpa" da velha e tão perseguida maconha! Também conhecido pelo nome Tell Your Children (por aqui ganhou o título de A Porta da Loucura, numa edição inédita em DVD pela Magnus Opus) é um filme de propaganda norte americano de 1936 produzido para exibição nas escolas contra o uso de marijuana, relacionando seus efeitos à destruição dos lares e à crescente onda de loucura e violência entre a juventude.

No período pós-Lei Seca (em vigor de 1920 a 1933), foi quase óbvio constatar que grande parte da garotada rebelde e artistas (principalmente músicos) tivesse trocado os proibidos goles etílicos pelos tragos de baseado em seus momentos recreativos, isso bastou para que um grande alarde se instaurasse e a maconha fosse eleita então como a vilã número um dos "bons costumes". O exagero conservacionista de Reefer Madness acabou dando a película o status de cult, ao retratar de forma cômica e divertida os perigos de se consumir a mardita erva.

O que era para ser algo sério, acabou tropeçando em seus próprios pastiches - hoje em dia pode ser considerado mais como um documento de paródia do que uma campanha sisuda de alerta. Na sua versão colorizada é impossível não dar boas risadas das fumaças verdes, rosas-choque e laranjas (cores as quais indicavam o graus de adição)expelidas por suas personagens imbecilizadas e estereotipadas...Estes discursos preconceituoso infelizmente ecoam (em outras escalas) até nos dias, ainda mais quando confrontado pela falsa narrativa que o álcool e o tabaco, por exemplo, não produzem efeitos mais devastadores que o ganja. Os que se destacam do senso comum sabem muito que por trás da aceitação social destas "drogas lícitas" existe um ganancioso interesse de Governos que se deliciam com as estratosféricas arrecadações de impostos que seu consumo desregrado obtém. Mais um absurdo da enorme lista de hipocrisias que ditam as regras e condutas deste mundo esqualido que clama por outras medidas muito mais urgentes. Como diria o velho Shakespeare, "o diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém."

Abaixo alguns materiais gráficos usados para divulgação do filme e o link para download de uma charmosa coletânea de mesmo nome (lançada em 2004 com o subtítulo de "Vintage Drug Songs ") que conta com grandes nomes do jazz e do blues cujos temas gravados entre 1927 e 1945 versam pelo universo das dores e prazeres da vida junkie e da boemia muito antes do apogeu do rock n' roll.



Track list:
1. Victoria Spivey - Dope Head Blues (3:20)
2. Don Redman - Reefer Man (3:32)
3. Chick Webb With Ella Fitzgerald - Wacky Dust (3:03)
4. Cab Calloway - Kickin' The Gong Around (3:26)
5. Lil Green - Knockin' Myself Out (2:59)
6. Barney Bigard - Sweet Marijuana Brown (2:58)
7. Jack Teagarden, With Benny Goodman - Texas Tea Party (2:22)
8. Frankie Newton - Onyx Hop (2:46)
9. Fats Waller - The Reefer Song (If You're A Viper) (2:52)
10. Lead Belly - Take A Whiff On Me (2:59)
11. Bessie Smith - Gimme A Pigfoot (Gimme A Reefer) (3:29)
12. Jerry Kruger, With Cootie Williams - Ol' Man River (Smoke A Little Tea) (2:48)
13. Chick Webb With Ella Fitzgerald - When I Get Low, I Get High (2:26)
14. Julia Lee - Lotus Blossom (Sweet Marijuana) (3:17)
15. Cab Calloway - C Gaskill - L Mills - Minnie The Moocher (3:11)
16. Helen Ward, With Gene Krupa - I'm Feeling High & Happy (2:43)
17. Stuff Smith - Here Comes The Man With The Jive (3:01)
18. Trixie Smith - Jack, I'm Mellow (2:45)

*download it here*

sábado, 7 de maio de 2011

A Dança Macabra

Alguns aspectos da arte inspirada no sobrenatural são por vezes relegados a um esquecimento injusto. Um dos mais interessantes e emblemáticos é a Dança Macabra, uma criação medieval que mostrava a Morte em pessoa à frente de figuras representativas da sociedade da época.(um imperador, um rei, um Papa, um monge, uma criança, uma atraente jovem) dançando como (ou com) esqueletos.

As ilustrações foram feitas após a devastação na Europa causada pela epidemia conhecida como peste negra (século XIV). Os primeiros exemplares datam do início do século XV, em igrejas da França, Inglaterra e Alemanha. A função da ilustração era, e ainda é, a de mostrar o quão frágil a vida é: não importa o quanto de fortunas ou glórias foram aqui amealhadas, na hora da morte o trabalhador e o governante são os mesmos.

A compreensão do ícone é será mais apurada se tivermos consciência de dois conceitos medievais, os termos macabro e momento mori. Macabro é uma palavra de origem francesa que provavelmente aparece pela primeira vez num fragmento de um poema de Jean Le Fevre, "Respit de la Mort"(Je fis de Macabre la danse,/Qui tout gent maine à sa trace/E a la fosse les adresse), e talvez se origine de Macabeus, os mártires cristãos que teria inventado a intercessão pelas almas do Purgatório. O termo significaria a interação dos mortos, ou da morte, com os vivos. Já o termo momento mori é a lembrança constantemente feita na Idade Média de que a morte é inevitável, que há uma outra vida e um julgamento final, portanto deve-se pesar bem o que se faz com seu tempo terrestre. Ambos os termos revelam o quanto o imaginário medieval ainda está presente na nossa sociedade, e o quanto devemos nossa formação moral e intelectual a essa época. A Dança Macabra como ícone é encontrado, além dos países citados (França, Inglaterra e Alemanha), em diversas igrejas e cemitérios na Croácia, Dinamarca, Estônia, Eslovênia e Itália).


O retorno ao medievo promovido pelo romantismo do século XIX trouxe de volta a Dança Macabra, não mais como símbolo representativo da metodologia cristã, mas como aspecto do medo e do desconhecido, que eles achavam esquecidos no mundo moderno. Goethe redescobriu a Totentanz (como é chamada a Dança Macabra em alemão), e utilizara numa balada, Der Todtentanz, e um outro alemão, Matthias Claudius, logo depois exploraria o tema no clássico Der Tod und das Mädchen (Claudius seria para sempre ofuscado pela versão musicada feita por Schubert em 1817).

A música ainda traria dois dos mais famosos exemplos de representação da Dança Macabra, na verdade mais presentes que a própria iconografia: a Totentanz, de Franz Liszt (inspirada na balada de Goethe) e a Danse Macabre (op. 40), composta por Camille Saint-Saëns. A peça de Liszt é uma série de paráfrases sobre o tema gregoriano do Dies Irae, parte da Missa de Réquiem, escrita para piano e orquestra. A obra começou a ser feita em 1840, mas só foi terminada por volta de 1850, embora só tenha tido a estréia em Haia quinze anos depois. Há registros que a inspiração de Liszt tenha vindo das ilustrações de Holbein, mas estudiosos defendem que Liszt talvez tenha tomado como inspiração “O triunfo da Morte”, encontrado num cemitério de Pisa, ou “Il trionfo della Morte”, de Andrea Orcagna. Uma outra fonte citada, certamente utilizada, foi a cena da Noite de Sabá, movimento da Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz.

Já a Danse Macabre, de Saint-Saëns é hoje a mais citada referência do termo. Composta em 1874, estreou em 24 de janeiro de 1875 em Paris. Baseado em um poema de Jean Lahor, pseudônimo de Henri Cazalis, descreve um esqueleto, representando a Morte, que toca violino num macabro festim que começa à meia noite. Ao som do seu violino afinando, vários outros esqueletos levantam-se para dançar e o baile só termina com o cantar do galo que anuncia a aurora. O inteligente uso da orquestra serve para melhor ilustrar a história: o badalar da meia noite é feito pela harpa e pelas trompas. O primeiro violino faz a Morte, os esqueletos que bailam são representados pelo xilofone e o galo, pelo oboé.

Outras representações inpiradas pela idéia da Dança Macabra vão aparecer na musica, na literatura e no cinema. “A Máscara da Morte Escarlate” (de Edgar Allan Poe), “Uma noite no Monte Calvo” (de Moussorgsky), o desenho de Disney “The Skeleton Dance” (das Silly Symphonies de 1929), nas canas finais de “O Sétimo Selo” de Ingmar Bergman, etc.


A Dança Macabra como ícone foi talvez uma das maneiras usadas pelo homem para visualizar seu mais misterioso e imbatível inimigo, a morte. O vazio, a mortalidade e a dificuldade de lidar com isso após a epidemia cristalizou-se na imagem da Dança Macabra, mas sua significação medieval e cristã foi perdendo pouco a pouco lugar na vida pública. O século das luzes fez de tudo para apagar o que se considerava irracionalidade, mas o ícone ganhou novo fôlego com o romantismo do século XIX. Ele terá lugar no subconsciente enquanto existir o mistério da morte e do que virá além da vida. Hoje cada filme, gravura ou motivo de horror traz em si um pouco da Dança Macabra, e porque não dizer, a homenageia.


(autor desconhecido - há muito tempo tenho guardado este pequeno texto e não salvei a fonte muito menos o site de onde foi retirado, quem souber me avise para que seja devidamente creditado)


E para ilustrar mais como o tema que tomou conta do imaginário coletivo na Idade das Trevas, seguem seis estrofes d'Os Versos da Morte escrito no final do século XXII pelo monge-poeta francês Hélinand de Froidmont, aqui no Brasil publicado em 1996 com tradução de Heitor Megale, Professor de Filologia e Língua Portuguesa na USP. Penso que a pauta é bastante atemporal, sua contextualização não envelhece e pode tranquilamente ser aplicada aos temores contemporâneos.

3
Morte, tu que em toda parte tens renda,
Que em todos os mercados tens as vendas
Que despojas ricos e pobres,
Tu qyue sabes abater os fortes,
Tu que para os potentados fazes a lei,
Que reduzes honras a nada,
Que fazes tremer os mais poderosos,
QUe fazes resvalar os mais os mais prudentes,
Que buscas todos os caminhos,
Onde se atola frequentemente,
Saúda por mim meus amigos
Inspirando-lhes um santo temor.

13
Morte, que atacas a mulher e o homem
Porque morderam a maçã
Com toda a força tu nos flagelas;
Vai saudar a grande Roma
Que, a justo título, assim se chama
Porque ela rói, escorcha e péla
Talha a simoníaco um manto
De papa ou de cardeal; Roma
É a macete que tudo espanca
Ela faz do sebo vela,
De um legado negro como fuligem
Faz uma estrela, onde tudo é igual

26
A morte, diante da alma de elite,
Deve aceitar um limite
A seu poder e a seus direitos,
POrque a alma santa está logo quite;
Também é preciso que se pague,
Enquanto se pode, aquilo que se deve
É na alma que está sem fé
E cujo corpo age sem lei
Que a morte, para sempre, habita.
Cada um tenha, pois, piedade de si
E siga logo esta via
Para evitar a morte súbita.

29
Que valem beleza e riqueza?
Que vale a honra? A grandeza o que é?
POis a morte, bem à sua maneir,
Faz sobre nós chuva e seca,
Pois que de tudo ela é senhora,
O que se preza e o que se despreza?
Aquele que ela não aterroriza
É a quem, primeiro, a morte visa
E é a ele que ela se dirige
Corpo bem alimentado e carne requintada
Fazem dos vermes e o do fogo camisa;
Mais se desfruta, mas se machuca

35
Valho argumento que se adianta!
Era toda a ciência
De antiga filosofia
De onde nasceu a infame crença
Que tira a Deus sua providência
E diz que não há outra vida
Se se escuta esta opinião
É melhor fazer loucuras
De o que viver na continência,
mas se não há outra vida,
Entre o ser humano e o porco
Não há diferença

42
Morte, tuo corres para onde o orgulho esfumaça.
Para apagar o que le acende,
Tu mergulhas tuas unhas agudas
No rico que esquenta e suga
O sangue do pobre e o que espuma,
Riqueza, por que tu me enganas?
Mas se tem, mas se é guloso,
Por que agora é o costume,
Mais se é poderoso e opulento,
Mais se é ávido e ambicioso
Fica-se gelado de se ter plumas demais.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Only Theatre of Pain - reissue # 2

Divulgados os nomes dos sons inéditos presentes no compacto 7" que vem como extra em sua versão long play (prensado em vinil violeta). Trata-se de "Cavity: First Communion" (Alternative Version) e "The Lord's Prayer". Além deste imperdível item, quem adquirir as primeiras cópias do bolachão também será contemplado com um poster promocional. Segue a tradução de "Cavity" e algumas imagens desta edição comemorativa para deixar os fãs mais instigados.

Cavidade - A Primeira Comunhão

Vamos desvelar o problema da disciplina
Vamos dar início a uma ilusão
com a mão e a caneta
Releia as palavras e comece de novo
Aceite o dom do pecado
O dom do...
O prazer está sangrando ao sufocar das palavras
As quatro paredes drenam-me de toda a imaginação
Gritando alto para receber a ordem de permanecer parado
Gritando alto para receber a ordem de permanecer parado
O preço da morte vermelha
é o preço do amor verdadeiro
A rainha Negra salta através de minha pele
O rei dos corações aguarda próximo ao lar
Alguém faz disparos lá fora
O dedo no gatilho arde de desejo
outro alvo se movendo
mais sangue em sua sobrepeliz
Mais sangue pelo preço da morte vermelha
Te prego contra a parede
Te prego contra o misticismo espanhol
te prego contra a parede
Três disparos ressoaram feito gritaria
Quem tem vontade de fazer o papel de soldado romano
que mantenho dentro de mim?
Artista perene, o que você vê?
O que você vê?
Meu receio oculto de estar sozinho
Eu sento e agarro minhas próprias mãos
Sento e faço amor comigo mesmo
Tenho sangue em minhas mãos
Tenho sangue sobre as suas
Sangue nas mãos
Sangue...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Only Theatre of Pain em reedição histórica

Hoje o selo americano Frontier Records colocou no mercado mais uma edição (em vinil e em cd) de um dos seus maiores orgulhos: o emblemático álbum de estréia do Christian Death: Only Threatre of Pain que, para muitos, é considerado o único e verdadeiro da carreira da banda. O fato é que se trata de um clássico, pois sem dúvida continua sendo referência de um gênero que viria ser chamado de "deathrock". Quando foi lançado em março de 1982, o LP "maldito" foi bem recebido até mesmo pela crítica européia (em especial na França) que considerava o Christian Death como uma boa aposta já que percebeu em seu som aspectos em comum à outras bandas punk-gothique que começavam a apontar nas paradas independentes do velho continente. Se de um lado as considerações positivas da imprensa e o boicote por parte de grupos religiosos conferiram ao disco status de "cult", nos bastidores as coisas não iam nada bem. Num certo momento as diversas substancias ingeridas pelos integrantes serviram de combustível para a gestação do disco, contudo, o abuso e seus efeitos colaterais acabaram impondo o fim prematuro da banda meses depois de ser concebido. Rozz acabaria reformando o grupo no final de 1983 (meio a contra gosto, já que sua idéia era formar outro projeto chamado Daucus Karota) desta vez com line-up completo por músicos do Pompeii 99. Depois de gravar mais dois álbuns, Rozz decidiu abandonar o barco de vez, porém não imaginava que os membros desta nova encarnação roubariam sorrateiramente o nome "Christian Death" partindo sem ele para uma longa estada na Europa, fato que deu início a uma das mais controvérsias brigas já relatadas na história da música alternativa.

Longe destas confusões, a Frontier se manteve firme na projeção neutra do disco, de forma que não fosse confundido como parte da discografia da banda genérica que permanece até hoje sub a tutela de Valor Kand. Com catálogo relativamente pequeno (mas com nomes de peso da cena punk/hardcore de Los Angeles), o selo tem o Only Threatre of Pain como seu disco com mais êxito comercial, o que resultou em mais de dez licenciamentos pelo mundo a fora. Em suas diversas reedições (exceto as francesas, cujas capas foram completamente modificada), o álbum recebeu poucas alterações gráficas, limitando-se mais na variação das tonalidades ou e na prensagem de vinil colorido, contudo desta vez a coisa é mais ousada e merece destaque: a nova edição conta com a arte original (desenho e caligrafia feita a mão por Rozz) sem retoques e ajustes de pós-produção presente nas versões anteriores. O encarte foi recheado com mais fotos de Ed Colver, responsável pela maioria dos cliques da banda na sua fase inicial. Seu track list não mudou nada; no entanto foi devidamente remasterizado a partir dos tapes originais. O cd, como de hábito, trás as demos do EP Deathwish como bônus. Já o vinil, em sua primeira tiragem limitada, vem com um compacto 7" contendo duas músicas nunca antes lançadas, o que torna esta nova versão muito mais atrativa e histórica.

Para comemorar este relançamento à altura, está agendada para o próximo dia 8, em Los Angeles, uma festa no club The Echo que contará com apresentação de Rikk Agnew e 45 Grave tocando temas do Christian Death original. Um ótimo programa pra quem mora para aquelas bandas...

Maconha, uma planta medicinal

A atual legislação do país sabota a pesquisa e impede a exploração assistida das baratíssimas propriedades medicinais da maconha

Houve época em que o uso de determinadas plantas medicinais era considerado bruxaria, e às almas das bruxas restava receber benevolente salvação nas fogueiras da Inquisição. Atualmente, o estigma que a maconha carrega faz, para muitos, soar como blasfêmia lembrar que se trata, provavelmente, da mais útil e bem estudada planta medicinal que existe.

Pior, no Brasil, se alguém quiser automedicar-se com essa planta, mesmo que seja para aliviar dores lancinantes ou náuseas insuportáveis, será considerado criminoso perante uma lei antiética, sustentada meramente por ignorância, moralismo e intolerância.

Apesar de sua milenar reputação medicinal ser inequivocamente respaldada pela ciência moderna, no Brasil, a maconha e seus derivados ainda são oficialmente considerados drogas ilícitas sem utilidade médica. Constrangedoramente, acaba de ser anunciado, na Europa e nos EUA, o lançamento comercial do extrato industrializado de maconha, o Sativex, da GW Pharma.

Enquanto isso, nossa legislação atrasada impede tanto o uso do extrato quanto o uso da planta in natura ou de seus princípios isolados.

Consequentemente, pessoas em grande sofrimento são privadas das mais de 20 propriedades medicinais comprovadas nessa planta.

Um vexame para o governo brasileiro, já que, em países como EUA, Canadá, Holanda e Israel, tais pessoas poderiam, tranquila e dignamente, aliviar seus sofrimentos com o uso da maconha e ver garantido seu direto de fazê-lo com o devido acompanhado médico.

Ingeridos ou inalados por meio de vaporizadores (que não queimam a planta), os princípios ativos da maconha podem levar ao alívio efetivo e imediato de náuseas e falta de apetite em pacientes sob tratamento quimioterápico, de espasmos musculares da esclerose múltipla e de diversas formas severas de dor -muitas vezes resistentes aos demais analgésicos.

Pesquisas recentes indicam também o potencial da maconha para o tratamento de doença de Huntington, do mal de Parkinson, de Alzheimer e de algumas formas de epilepsia e câncer. A redução da ansiedade e os efeitos positivos sobre o estado emocional são valiosas vantagens adicionais, que elevam sobremaneira a qualidade de vida dessas pessoas e, por conseguinte, seus prognósticos.

A maconha não serve para todos: há contraindicações e grupos de risco, como gestantes, jovens em crescimento e pessoas com tendência à esquizofrenia. Em menos de 10% das pessoas o uso descontrolado pode gerar dependência psicológica reversível. Mas, ponderados riscos e benefícios, para a grande maioria das pessoas, a maconha continua a ser remédio seguro.

A biotecnologia brasileira tem todas as condições para desenvolver variedades com diferentes proporções de princípios ativos, reduzindo efeitos colaterais e aumentando a eficácia das plantas (ou de seus extratos) para cada caso.

Indiferente, contudo, à ciência e à ética médica, a atual legislação brasileira sabota nossa pesquisa básica, clínica e biotecnológica nessa área de ponta e impede por completo a exploração assistida das preciosas e baratíssimas propriedades medicinais dessa planta.

É hora de virar esta página carcomida pelo obscurantismo e pelo desdém com o sofrimento humano, fazendo valer não apenas direitos fundamentais dos indivíduos mas também as próprias diretrizes da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que, segundo o Ministério da Saúde, tem por objetivo: "garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade, o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional".

Renato Malcher Lopes, neurobiólogo, mestre em biologia molecular e doutor em neurociências, é professor adjunto do departamento de fisiologia da Universidade de Brasília e coautor, com Sidarta Ribeiro, do livro "Maconha, Cérebro e Saúde".

terça-feira, 26 de abril de 2011

Adrian Borland (6 December 1957 – 26 April 1999)

Há 12 anos atrás a cena alternativa perdia um dos seus maiores porta-vozes: Adrian Borland...Seu corpo se foi, mas a sua obra permeia, influenciando mesmo que timidamente aqueles músicos que fogem de alardes e se centram numa música sincera onde a simplicidade é a receita para um trabalho leal aos impulsos da alma...

Como a maioria dos jovens de sua geração, Adrian se curvou ao movimento punk e viu que este agito era um terreno fértil para extravasar suas angustias e talento. Em 1976 ele formou o The Outsiders, considerada por muitos, uma das bandas pioneiras do movimento – álbum Calling On Youth teria sido o primeiro LP punk a ser gravado e lançado por um selo próprio.

A banda esteve bastante ativa no circuito de Londres, chagando a tocar até em clubs lendários como Roxy. Num destes concertos, a banda recebeu a participação Iggy Pop que empolgado na platéia subiu ao palco quando interpretavam uma versão de "Raw Power" (The Stooges).

Em 1978 os Outsiders lançam mais um álbum, porém um ano depois Adrian decide a abandonar de vez o movimento punk. Inspirado pela saída de Howard Devoto dos Buzzcocks que partiu para formar o Magazine (uma das bandas pioneiras, ao lado do PIL, do nascente post-punk), Borland começou a prestar atenção nesta nova safra de bandas que mostravam novas possibilidades criativas já que parte do contingente punk da primeira geração permanecia musicalmente estagnado ou entregue as exigências mercadológicas da new wave...Ele decide então implodir o Outisiders, levando consigo o baixista Graham Bailey para formar o The Sound que se comprometeu a seguir um outro caminho apoiado numa sonoridade mais atmosférica e densa, propícia para as letras poéticas de Adrian que não se contentava mais em ser apenas um daqueles garotos que grunhiam criticas e protestos ingênuos de cunho político. O Sound tem seu line-up completo pela tecladista Bi Marshall e Michael Dudley (bateria).

Os primeiros ensaios e gravações da nova banda ocorreram na casa de Borland, tendo seu pai (Bob Borland) atuando como engenheiro de som. Este material raro (que por hora carrega o vigor punk dos velhos tempos do Outsiders) foi apresentado postumamente em 1999 com o titulo Propaganda. Já nos primeiros dias de existência já era possível perceber a evolução gradual do Sound que aos poucos deixava para trás suas melodias mais urgentes e cruas para ir de encontro sua própria identidade. Stephen Budd, do selo Tortch-R, que tinha lançado o projeto paralelo de “minimal wave” de Borland e Bailey (o Second Layer) teve acesso a estas demo tapes e viu que também era o momento hora de investir no The Sound ao lado de Nick Robbins, atuando como empresário e financiando as gravações em estúdio para o primeiro EP - Physical World lançado em 1979. Logo em seguida a banda inicia uma pequena turnê para a divulgação do disco.

O primeiro LP veio em 1980 pelo pequeno selo Korova (o mesmo que debutou Echo and The Bunnymen): Jeopardy gravado com um investimento modesto e de cara foi bem recebido pelos semanários musicais que o equiparam a discos de bandas de primeiro escalão como Joy Division. Apesar das atmosferas oferecidas pelos teclados frios de Marshall, “Jeopardy” pode considerado um disco essencialmente punk, porém não é nenhum exagero dizer que apresenta um potencial radiofônico, vide as faixas como “Heartland”, “Heydey” (segundo single da banda) e “I Can't Escape Myself” que injustamente ainda permanecem praticamente anônimas.


Pouco tempo depois deste lançamento Bi Marshall deixa a banda e é substituída por Max Mayers. A mudança na formação não abalou em nada o Sound que logo entra em estúdio com o produtor Hugh Jones (que meses antes havia trabalhado com os Bunnymen no álbum Heaven Up Here) para gravar aquele que é o seu maior clássico e um item essencial para qualquer fã de pós-punk que se preze: From The Lion’s Mouth. Este disco possui, do inicio ao fim, composições impecáveis tecidas por uma sonoridade mais encorpada e climática. Logo em sua primeira faixa, o disco nos convida ao um desafio: mergulhar no clima turvo de suas músicas. Sua temática, embora com inclinação melancólica (por vezes furiosa), serve como uma reação ou alternativa aos problemas existenciais; "reaja ou se afunde" como é bem claro na faixa de abertura "Winning": "eu ia me afogar / então eu comecei a nadar / eu ia para baixo / então eu comecei vencer". Porém, há espaço aqueles que se viram vencidos aos próprios conflitos (que por ironia, o destino reservaria a Adrian o mesmo fim trágico): “Silent Air” é uma bela dedicatória à Ian Curtis. Como “Jeopardy”, o álbum foi muito aclamado pela crítica musical, mas tratado com indiferença pelo público.

Por este motivo começou a surgir uma certa pressão do selo Korova, que tinha expectativas que o Sound emplacasse algum hit ou que sucumbisse a um som mais acessível. Isso de fato nunca aconteceu e ao contrario do solicitado pela editora, eles voltaram a trabalhar com o produtor de Jeopardy (Nick Robbins). Por questões burocrática e tributarias, a banda foi transferida para a major WEA que ficou responsável pelo lançamento do terceiro álbum All Fall Down. Sem atender as exigências comerciais da gravadora, o álbum não recebe nenhum respaldo para sua divulgação. O rescisão com a WEA foi inevitável, forçando banda a cair num breve hiato, período em que aproveitam para repensar sua trajetória. Sondados por vários selos maiores, os rapazes acabam contratados pelo pequeno Statik.

Em paralelo a banda assina um contrato com a A&M que fica responsável pelo lançamento do EP Shock of Daylight nos EUA em 1984. No ano seguinte lançam “Heads and Hearts”, seu quarto álbum. Desiludidos pela industria fonográfica, em 1987 se despedem com o álbum Thunder Up”, editado pelo selo belga Play It Again Sam. É belo trabalho onde a banda consegue estabelecer uma sonoridade que pode ser considerada uma combinação de tudo que já haviam experimentado nos discos anteriores. Encerram a carreira em grande estilo. Títulos como “Prove Me Wrong” e “Kinetic” sugerem um tapa na cara dos grupos da atualidade que se gabam com seu preguiçoso “pós-punk-pastereurizado” que surpreendem apenas os ignorantes travestidos de descolados.

Após o fim do Sound, Bailey e Dudley abandonaram carreira musical e caem no ostracismo juntamente com Mayers, que morreu no começo da década de 1990 vítima de AIDS. Borland, por sua vez, continuou ativo no underground, gravando alguns álbuns por diversos selos, lançamentos os quais não devem ser ignorados de maneira alguma pelos antigos admiradores do Sound. O musico também atuou como produtor de bandas como Felt, Dole, Into Paradise, Red Harvest, Steve Lake, Cassell Webb e The Prudes.

Mesmo a meio a tantos compromissos, ele passava por uma fase conturbada marcada por crises de depressão potencializadas pelo alcoolismo. No dia 26 de abril de 1999, após outras tentativas de suicídio, Borland se atirou à frente de um trem na estação Winbledon em Londres. Um mês antes ele havia escrito uma carta para os seus fãs, onde mostrava muito entusiasmo com o álbum 700 Miles Of Desertt (do seu projeto White Rose Transmission) que estava em processo de gravação.

Foi uma perda irreparável, mas, como os grandes mestres, deixa uma extensa e rica discografia a ser apreciada por gerações.

ESQUELETOS
Há um buraco boquiabrindo no caminho em que nós estamos
Com mais nada a preenchê-lo
Sem carne sem sangue apenas osso quebrado
Uma moldura para pendurar nossas vidas
Estamos vivendo como esqueletos
Será que alguém acordará o morto em mim?
Será que alguém sacudirá minha poeira?
Dê-me água dê-me pão
Mas não me dê aos mortos
Estamos vivendo como esqueletos

(“Skeletons” - From The Lion’s Mouth).