sábado, 19 de fevereiro de 2011

Black Sundays - Morbid I

Entre 1991 (ou 92?) e 1995, o Black Sundays do DJ Tonyy foi o mais expressivo projeto que apoiou e divulgou de fato as chamadas gothic tendencies no circuito alternativo paulistano. Numa em época em que a difusão on-line ainda nem era sonhada, seu idealizador se sentiu sensibilizado pela carência de informação que o público aficionado da época sofria. Mesmo que sua intenção inicial fosse ganhar este peculiar público noctívago pelos tímpanos, não era exagero chamar essa empreitada como incentivo cultural - onde havia um clube (em especial o Armagedon) que tocasse um som que estava dentro de sua proposta, lá estava a "lojinha" do Projeto Black Sundays vendendo suas fitinhas (ainda não tínhamos o cd-r que hoje em dia também já é obsoleto), camisetas, fanzines e outras coisinhas que faziam, paradoxalmente, qualquer gótico feliz...Além das discotecagem o projeto promovia mostras de filmes expressionistas do inicio do século XX voltados para tal estética, fomentando a propagação de suas atividades com uma cara mais “cult”. Parece uma afirmação nostálgica e repetitiva desmerecer a maioria dos trevosos atuais – boa parte de quem vivenciou isso sabe de cor que não se fazem mais góticos como antigamente. O que temos hoje na realidade é um subproduto banal deste bombardeamento de informações; naquela época era possível distinguir o sujeito que acompanhava esta sub-cultura, pois seu interesse era de um genuíno garimpeiro. A democracia ou a inclusão digital está ai e isso faz com que questionemos alguns gostos atuais e concluímos que boa parte das afeições pelo underground, expressadas no mundo virtual é conduzida por uma efêmera e duvidosa “paixão”. Mas, voltando ao tal Black Sundays...Até um tempo atrás, artigos como cds e LP's que faziam a felicidade desta turma, vinham de fora. Importar ainda era muito caro, então por que não "fabricar" as suas próprias compilações em fitas K7 como os amigos faziam? Vender este item ao equivalente a uns R$ 4,00 pagava a mão de obra e o recheio era o suficiente para você conhecer uma gama de bandas até então desconhecidas. Eram diversos títulos com número de catálogo número e tudo mais, sendo que a maioria tratava-se de compilações que exibiam as “principais músicas” (como um greatest hits) das bandas mais expressivas da dark music ou coletâneas sortidas que levavam em seu rótulo o subgênero que predominava seu set, tipo “dark wave”, “gothic rock’ etc. Sim, a idéia de fato era catequizar, mas não de forma arrogante, e sim de maneira bem amigável e acessível. Eu adquiri na finada Mr Boris três destas fitas e foi através destas “memorabilia” que conheci muita coisa. Elas eram embaladas com uma capinha impressa em papelão de gramatura média e marrom, com a logomarca “Black Sundays” e o track list escritos com as fonts características das demais peças gráficas difundidas pelo projeto.
Nestes lapsos nostálgicos resolvi reproduzir o set de duas destas fitas em mp3 e disponibiliza-las para download a fim de dividir a emoção que era de manipular um tapedeck. A primeira tem o título de “Morbid I” que possui uma lista de músicas com uma abordagem bem soturna que poderiam tranquilamente servir como trilha sonora para um funeral num domingo chuvoso...Dentro da pasta há digitalizado a capa do K7 original. A próxima coletânea será a “Hard Goth I”. Espero que apreciem.

Track list:
A 1. Death In June - Last Farwell (5:33)
A 2. Tones On Tail - Movement Of Fear (3:51)
A 3. The Eternal Afflict - Crash Course In The Garden of Christ (5:55)
A 4. Maeror Tri - Ardor (4:14)
A 5. The Cure - Cold (4:26)
A 6. The Sisters Of Mercy - Fix (3:41)
B 7. Les Berrtas - Ruhe in Unfrieden (5:15)
B 8. In Slaughter Natives - Angel Meat (5:21)
B 9. Lycia - Everything Is Cold (3:25)
B 10. Das Ich - Freuel (5:58)
B 11. Love And Rockets - Saudade (5:00)
B 12. Siouxsie and The Banshees - Obsession (3:51)

*download it here*

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Corpo Perdido, Corpo Recuperado - Autoconhecimento E Bioenergia


Autor: Sueli Nascimento


Anualmente Atenas pagava a Creta um tributo composto por sete rapazes e sete moças, para serem entregues em sacrifício ao insaciável Minotauro que se alimentava de carne humana. Cansado e disposto a terminar com a opressão Teseu solicitou ser incluído na oferenda daquele ano.

O Minotauro vivia em um labirinto, constituído de salas e passagens intrincadas, no palácio de Knossos. Ao chegar a Creta, Teseu conheceu Ariadne que se apaixonou por ele.

Ariadne, resolvida a salvar Teseu, pediu a Dédalo, o construtor, a planta do palácio que estudou meticulosamente. Ela acreditava que Teseu poderia matar o Minotauro, mas não saberia sair do labirinto. Ariadne deu um novelo de lã a Teseu recomendando que o desenrolasse, à medida que entrasse no labirinto do Minotauro, criando assim uma trilha que lhe possibilitaria encontrar a saída. Teseu usou essa estratégia, matou o Minotauro, salvou os companheiros e, com a ajuda do fio de Ariadne, encontrou o caminho de volta.

Corpo perdido

A clínica reichiana pensa o sofrimento psíquico desde uma ótica corporal. Acreditamos que a retomada da corporalidade representa uma espécie de fio de Ariadne que pode conduzir ao autoconhecemento através de nosso labirinto íntimo.

As pessoas podem aprender sobre quem são, o que querem, suas potencialidades e limites a partir das sensações bioenergéticas e usar esse autoconhecimento para lidar com o estilo de vida contemporâneo de existir distantes de si mesmas e com a percepção desconectada, tanto de seus processos internos como do mundo à sua volta.

Viver desconectado e distante de si é como estar envolvido por uma redoma de vidro percebendo o mundo de maneira distanciada, como se não fizesse parte dele, sem acolhimento, sem abrigo, sem descanso. É nessa retomada de nós mesmos que poderemos refinar nossas funções autoperceptivas e sensoriais e poderemos fazer o reaprendizado relacional sobre o qual falaremos mais adiante.

Quando reiteramos a importância desse refinamento funcional não propomos colocar pedras sobre nossos antigos modos de ver a vida e os comportamentos advindos deles, julgando-os improdutivos, renegá-los.

Isso levaria a outra forma de paralisia energética, levaria ao, já conhecido, hábito de desqualificar a nós mesmos e à repetição de alguns comportamentos inadequados que também são formas de defesa, pois é assim que aprendemos a nos comportar diante da experiência nova, angustiante.

É importante compreender que modos de pensar e padrões viciados de comportamento, baseados puramente em experiências passadas, deixam de ser território seguro e, em determinadas situações, passam a ser prejudiciais para a qualidade de vida da pessoa, não devemos nos desqualificar pelo que fizemos ou deixamos de fazer, é importante aprender com o que consideramos erros, pelo nosso bem e pelo bem de nossa convivência com os outros, mas é fundamental encontrar respostas novas para questões atuais.

Usar no presente aqueles padrões de pensamento e comportamento que funcionaram bem no passado é como usar, na vida adulta, a blusa preferida dos tempos da infância.

As pessoas crescem e o que funcionava antes pode não servir mais, insistir em usar hoje os mesmos recursos, as mesmas ferramentas que foram úteis, ou deram certo, no passado é como usar uma blusa de criança, será no mínimo desconfortável, pode provocar falta de ar, machucar a pele, afinal você já não é mais o mesmo.

Não se pode proteger adequadamente do frio só com aquele pedacinho de lã, da mesma forma é preciso compreender quais mudanças ocorreram e estão ocorrendo agora em sua vida e buscar ampliar recursos que se harmonizem com o momento que está vivendo.

Corpo recuperado

O aprimoramento de nosso modo de viver é importante para o desenvolvimento de defesas funcionais que substituam o encouraçamento rígido que nos limita.

Flexibilizar as couraças é fundamental também para a qualidade da relação da pessoa consigo mesma, elas preservam de alguns impulsos internos difíceis de lidar – por exemplo, quando uma pessoa se depara com um aspecto de sua personalidade até então desconhecido, despertado por uma situação peculiar ou sente como se houvesse outra pessoa dentro dela tomando atitudes que jamais pensaria tomar colocando-se em situações constrangedoras sem que entenda por quê.

Na maior parte das vezes esses impulsos internos não compreendidos, são considerados erros, comportamentos inadequados, atitudes autodestrutivas, mas na verdade foi o afastamento progressivo do Eu que criou toda a confusão entre o Eu que se quer e o Eu que se consegue ser. Pensamos a flexibilização das couraças e a retomada da corporalidade como o ato de tecer o fio de Ariadne. Mas há saída.

Tecendo o fio de Ariadne

Wilhelm Reich, durante as quatro décadas dedicadas à pesquisa em ciência natural sobre a vida e suas funções, afirmava que amor, conhecimento e trabalho devem nortear a vida dos seres humanos, e serão esses os princípios que nortearão a retomada da corporalidade e da relação consigo mesmas das pessoas.

Através do aprendizado sobre si mesmo esse Eu encontrará espaço para se manifestar. É preciso olhar para dentro de nós mesmos com atenção e cuidado, mas sem medo, pois com o apoio de nosso fio de Ariadne teremos a saída de nosso labirinto íntimo.

Paradoxalmente, a redescoberta de si pode ser assustadora e maravilhosa. É fundamental ir além do que nos foi dito sobre quem somos ou o que deveríamos ser; ir além de nossos pressupostos sobre amor, sexo, vida compartilhada, encontros amorosos e descobrir o que, realmente, pensamos e sentimos sobre isso tudo; o que precisamos ainda aprender e o que já podemos ensinar aos outros.

fonte

Perfil do Autor

Analista reichiana. Consultora Associada da FLUIR Desenvolvimento Social e Humano.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Satanic Versus

Expresse-se
Expresse-se
Expresse-se
Expresse-se
Expresse seu sofrimento, sua fé, opinião
Expresse sua auto-admiração
A dignidade da vida e da morte
Com cultura e civilização
Com hora para a simpatia e hora para a ação
Expresse vingança e condenação
Seu senso de liberdade, justiça, paz,
Expresse suas políticas externas
Os direitos dos homens, o empreendimento
O livre arbítrio e integridade
Seu amor-próprio e auto-desejo
Sua fé em Deus e no fogo religioso
O fim da razão e o fim da ciência
O fim da família, o fim da violência
Versos satânicos de sua superstição
A terra da abundância e do armamento
O fim da história, o fim dos tempos
O fim da música e o fim da rima
Expresse o controle imaculado
Expresse o inexpressível
Expresse-se como a nação principal
O primeiro, o segundo, o terceiro domínio do mundo
Estampe estrelas e listras para sempre
Conspiração do terror e da salvação

(o sempre irônico e anti-imperialista Laibach)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

NICO – CHELSEA GIRL (1967) – Por Fernando Naporano

Nas edições antigas da Revista Bizz (de quase 30 anos atrás) havia nas suas últimas páginas uma coluna entitulada "Discografia Básica" com resenhas álbuns essenciais para discotecários de música pop ou colecionadores de música boa de plantão. Vai ai uma entre outras que pretendo postar aqui futuramente.



Manhã de 18 de junho de 1988, Ibiza, a femme fatale do Velvet Underground, estava morta. Vítima de uma hemorragia cerebral após uma queda de bicicleta. As vezes a vida prega peças extremamente irônicas. Justamente ela, uma notívaga por excelência, alcoólatra e junky, despede-se num ensolarado passeio matinal. No dia seguinte, em Berlim, o cobiçado corpo de Christa Paffgen estava cremado. A idade e nacionalidade de Nico (um anagrama de icon) é um tema de discussão, pois dizem que ela nasceu em outubro em Colônia, (Alemanha) em 1938 ou 1944, enquanto outros afirmam que foi em março em Budapeste (Hungria), em 1943.

Dúvida à parte, sabe-se que a incursão musical dessa modelo e atriz (sua primeira aparição cinematográfica dói no filme La Dolce Vita, de Fellini), educada entre a França e a Itália, foi em 1964, quando se mudou para Nova York e arrumou emprego como cantora de bar. Conheceu e fascinou Bob Dylan, que levou-a a Andy Warhol, que, por sua vez, nos ido de 1965 apresentou-o ao recém fundado Velvet Underground, em que permaneceu como cantora até 1967, tendo participado apenas do primeiro LP do white light/white heat da psicodelia americana. Ainda em 1967, aoós sua participação no Exploding Plastic Inevitable (projeto multimídia do Velvet Underground por Wharol), a chanteuse optou pela carreira solo.
Dona de uma personalidade febril e suicida, era bastante descolada no jet set musical, se já não bastasse ser apadrinhada pelo mestre da art pop e ter adquirido uma controvertida fama como Velvet. Tendo o badalado cineasta Paul Morrisey como manager, não foi difícil convencer o produtor Tom Wilson a gravar seu debut como solista.

Chelsea Girl, o disco em questão,, lançado nos fins de 1967, cujo o título é quase homônimo ao filme de Andy Warhol (Chelsea Girls), é um dos trabalhos mais sensíveis e cinzentos da década de 1960. Uma obra lapidada por sua insofismável melancolia, (re)visitando os porões proibidos da paixão, plenos de mistérios, medo e tristeza. Com cinco canções escritas pelos integrantes do Velvet – cujos destaques são a cold-ballad “The Winter Song” (John Cale) e a hipnótica “Chealse Girls” (Lou Reed/Sterling Morrison) -, três do então adolescente Jack Browne (entre elas a arrepiante “These Days”), uma do outsider Tim Hardin e outra de Bob Dylan (“I’ll Keep It With Mine”), feita especialmente para ela. Chelsea Girl é um LP em que Nico, com sua voz sua suave e penetrante, melancólica e glacial, personifica-se como uma idiossincrática folk singer, ladeada por arranjos orquestrais, sutis nuances psicodélicas e um rockmântico gosto amargo do 60’s beat-ballads.

Após a estréia em 1967, a noir-chanteuse (ilu)minada por uma vida errática, gravou até a sua morte um total de nove LPs, sendo que durante sete anos esteve afastada da música graças a sucessivas crises existenciais, sublimadas em gim e heroína. Entre memoráveis LPs, temos o folk-minimal Marble Index (produzido por John Cale, que sobre o fracasso comercial do disco declarou: “Como é possível vender o suicídio?”), o delicado semi-experimental Desert Shore, o clássico “The End” (Doors) e tradicional “Das Lied der Deutschen”), e o gótico-claustrofóbico Drama of Exile (demonstrando também que, sem querer, apenas por uma questão de natureza, foi precursora da dark music) e o doloroso Camera Obscura (um trabalho que, além da sublime cover de “My Funny Valentine”, conta com a inserções de elementos do gênero pós-industrial). Hoje, sua obra, embora um tanto quanto obscura, legou uma irreparável influência de cantoras/compositoras contemporâneas como Danielle Dax e Diamanda Galas continuam reciclar sob uma nova ótica.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Algumas considerações sobre Cultura Alternativa


Para compensar a falta de textos autorais e para variar um pouco das matérias tão citado e extinto site Junkeria Nefesta, postarei algumas matérias e entrevista transcrita do meu acervo, provenientes de revistas e fanzines dos anos 80 e 90. A idéia é que este blog seja também uma fonte de pesquisa aos interessados pelas tendências musicais que permeiam os seus arquivos. Para estrear esta etapa escolhi um texto que faz um link com a entrevista da postagem anterior. Mas não se trata de um texto tirado de impresso e sim de um ensaio editado em 14/05/2001 numa lista de discussão (talvez do Sépia Zine), cujo autor assinava apenas como Donimo. Essas considerações soam um pouco ideológicas, mas ainda muito atuais já que não é de hoje que a cultura alternativa se perdeu nas mãos de uma juventude apática, amortizada pelo consumo e pela falta de ideais. Ainda acrescento que ela não virou só virou divertimento de burguês, mas também escapismo vulgar uma classe desprovida de beleza, educação e informação (fica a dica – sites de festas afins que mais parecem literalmente os portais do inferno).

É chegada a hora de questionarmos a chamada Cutura Alternativa, herança das agitações dos anos 60. Seu mérito foi apresentar-se como uma nova forma de expressão jovem, uma indignação em relação a um mundo cada vez mais desumano.

Mas, sejamos francos: a Cultura Alternativa transformou-se em um divertimento burguês, hedonismo justificado numa consciência que muitas vezes não existe. Ela é uma alternativa a que, se dentro dos meios onde se desenvolve, encontramos muito mais os idiotas do cotidiano (ainda mais arrogantes) do que pessoas verdadeiramente engajadas?

Toda identificação cultural exige uma devoção ou, pelo menos, um real interesse. Atualmente, nossa "Cultura Alternativa" vive de aparências; reduziu-se unicamente ao campo da moda. O parecer tomou o lugar do ser. E uma subcultura que não se propõe a criar nada, que não representa um inconformismo, tende a ser esmagada pelas idéias da maioria ou contaminar-se com elas. Não estou dizendo que "ser-alternativo" signifique enclausurar-se em determinado modo de vida ou guiar-se pelo comportamento de um grupo; não é isso! Deve haver uma identificação mínima entre o indivíduo e o grupo; do contrário, só há incoerência. E nosso mundo está farto de incoerências!

Que Cultura Alternativa é essa, que repete os mesmos vícios do dia-a-dia, que se perde em mesquinhez? Seriam seus únicos propósitos os escândalos, as brigas entre facções, o segregacionismo?

Os inimigos dos partidários alternativos são os próprios "alternativos", já que sua "cultura" é fraca e inconsistente demais para voltar-se contra a sociedade. No entanto isso não significa que tal cultura seja inofensiva : ela mexe nas feridas da ótica dominante, nega os preconceitos da maioria (ao mesmo tempo que cria os seus) e estabelece hábitos próprios. A promiscuidade e a violência, condenáveis para a opinião da hipócrita maioria, são permitidas e às vezes, são o grande chamariz dessas subculturas. Freqüentar o cemitério, pixar muros, mutilar-se são comportamentos bizarros de adolescentes sem rumo : é somente assim que as pessoas os vêem. Elas não conseguem enxergar nessas atitudes um exercício de liberdade, pois a importância da liberdade só é compreendida quando o autoritarismo impera ou quando há um clima de terror. Esse terror e essa repressão são sentidos por poucos (e imitados por muitos) em momentos de aparente tranqüilidade (como nossos dias). A mídia ajuda a dissipá-los.

Também é por isso que a Cultura Alternativa volta-se contra a mídia : pois ela não é um instrumento livre e não permite que a sociedade adquira consciência por si própria. A Cultura Alternativa, hoje, parece não ter sentido, pois as pessoas que vivem nela imersas nem sempre estão dispostas a lutar por ela. Muitas a encaram apenas como uma diversão excêntrica, sem procurar fortalecê-la, sem ter a consciência que essa pequena parcela da sociedade poderia tornar-se importante se desenvolvesse algo de novo e cultivasse o respeito à pluralidade e ao diálogo. Há também a presunção de alguns partidários que julgam que seus mundinhos são algo fora da sociedade e querem ver cada vez menos gente envolvida, pois isso garantiria que apenas "pessoas interessadas" participassem de uma determinada "cena". Quem pensa assim não está muito longe do totalitarismo.

Todo "movimento" deve estar disposto a degradar-se; deve colocar-se a prova. Se, ao final de um período, sobreviver com suas idéias iniciais quase intactas, isso provará que ele é legítimo e necessário. Sempre haverá os fúteis e os desinteressados (estrangeiros no underground), mas esses não suportam o "peso da cena" por muito tempo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

self speak (ego)


Cadavres Exquis: Olá Rod. Em algumas pesquisas que fiz no Google, descobri que o seu antigo site Junkeria Nefasta é citado como referência da chamada cena “death rock” daqui do Brasil, especialmente a de SP. Como surgiu a idéia de fazer um e-zine voltado para a tal cena?
Rod: Surgiu há quase 15 anos atrás, mas a idéia inicial era que não fizesse parte de alguma cena. Neste meio tempo a coisa tomou diversas formas. Depois que o provedor retirou o site do ar não tive mais vontade de retomá-lo, pois me desliguei de tudo que acontecia na chamada cena “deathrock” de SP que pra mim nunca existiu de fato. Na realidade estive sempre ligado de alguma forma a underground desde 1993, 1994, mas não muito ativamente, conhecia algumas pessoas que trabalhavam na noiteapenas...Era um fã assíduo do The Cult e foi através dos seus trabalhos primordiais que fiquei mais interessado no chamado “positive punk”, o que me abriu a mente para os sons relacionados vindos do post-punk.

Cadavres Exquis: Essa foi a sua porta de entrada ao circuito gótico?
Rod: Digamos que sim, mas apenas como ouvinte. Quando eu tinha meus 15, 16 anos eu ainda escutava alguns vinis de heavy metal e hard rock que ganhava, como Iron Maiden, Sepultura. Talvez fosse uma forma de me agrupar com uns amigos do colégio que já me chamavam de “gótico” sem eu saber o que era musicalmente, mas que me atraia de alguma forma...Entre estes discos estavam os álbuns “Electric” e “Sonic Temple” do Cult, mas depois que ganhei o “Love” senti que minha identificação com sons “ingleses” eram de fato uma realidade, ai vieram Siouxsie, Echo and the Bunnymen, The Mission, Sisters...Este disco foi um divisor de águas para mim. Fiquei mais interessado depois de conhecer o seu embrião, o Southern Death Cult que me atrai até hoje pela simplicidade, atitude punk, clima sombrio e místico. A coisa foi fluindo naturalmente. A partir dai, eu sempre escutava alguns programas no rádio em que sua programação estava quase totalmente voltada a este tipo de som. Na 89 FM tinha o "Novas Tendência" do José Roberto Mars e o "Rock Report" do Fábio Massari. Por estes programas conheci muita banda...É quase absurdo falar isso, mas lembro de ter escutado coisas como Virgin Prunes, Christian Death, Sisterhood, Death Cult...Era sempre bom estar com uma fita virgem em prontidão porque era certo que tocariam coisas boas. Tinha a 97 FM também, de Santo André que também abria sua programação aos sons alternativos da época já que era berço de casas importantes como o Front 575. Desta rádio tínhamos um programa excelente do Ricardo Bola (que esqueci o nome agora) e um do Enéas Neto aos domingos chamado Zenzor voltado a música eletrônica, principalmente ao EBM e eletro goth. Ah O Kid Vinil era um cara que eu sempre acompanhava, seja na TV ou no rádio...Na TV Cultura nos anos 80 ele tinha um programa chamado Som Pop que durou até o começo dos 90. Tenho alguns gravados em VHS, com clipe dos Smiths, Jesus And Mary Chain. Ele depois foi diretor da programação da Brasil 2000 há alguns anos atrás, mas logo se desligou e de vez enquando ele aparece discotecando por ai. O universo conspirava mesmo pra eu gostasse deste tipo de sonoridade.

Cadavres Esquis: Em que ano era isso? Você já frequentava algum club alternativo?
Rod: Deveria ser entre 1992, 1993...Nesta mesma época consegui uma cópia da bolacha “The Iron Mask” do Christian Death que consegui numa loja de um shopping center (!). Esse disco para mim foi fundamental, pois soava punk também, porém possuía temas bastante mórbidos. O mais bizarro foi saber que somente no Brasil foi editado em vinil e hoje em dia é uma verdadeira relíquia. Foi meu primeiro contato com Rozz Williams...Foi um ano estranho para mim, me sentia diferente dos outros garotos que estavam bastante ligados ao nascente som grunge. Eu não usava um visual extravagante até porque nem tinha grana para isso, no máximo um cabelo encaracolado que há tempo não cortava e algumas camisetas escuras e desleixadas. É engraçado falar sobre isso, mas vejo a importância de um disco ou de um som que você ouve e como aquilo te faz mudar – como um livro ou uma obra de arte. Talvez, se essa fase não tivesse acontecido eu não teria bases para fazer algo que depois é comentado por alguns até hoje. Nesta época eu sempre ia à Galeria do Rock, ficar paquerando alguns discos, com a grana que ia juntando aos poucos comecei a minha coleção. Eu também ia lá para pegar alguns flyers de festas...Lembro de um final de semana que fui pela primeira vez ao Morcegóvia com uns amigos. Foi bem bacana porque, além de ficar mais por dentro do que rolava, meu irmão, que tocava bateria comigo (no Post Morten) acabou se dando bem e engraçando numa banda de “gothic rock” chamada Abadon que mais tarde se tornaria o Imperial...Naquela noite tocaram duas bandas no palco pequeno do club, o Chuva Rubra e o Sufrágio da Alma.

Cadavres Exquis: Nos idos de 1992, 1993 a cena de São Paulo estava recomeçando já que os frequentadores oriundos da Treibhaus, Ácido Plástico, Carbono 14 e do antigo Madame Satã eram raramente vistos...
Rod: Isso....Lembro de ter ido ao primeiro show do Cult aqui no Brasil em dezembro de 1991 e eu tinha apenas 14 anos...Não me pergunte como consegui entrar, mas foi memorável. Como eu tinha dito de alguma forma anos depois já estava habituada a cena, já que neste show vi alguns membros da “velha guarda” do circuito gótico de SP...Garotas super produzidas como bruxas, rapazes vestidos como se tivessem saído do club Batcave de Londres. Tudo aquilo ficou arquivado na minha cabeça e só ajudou a arquitetar e formular meu gosto musical e estético. Porém, quando comecei a sair para estes clubs, o estilo “gótico” era mal visto, démodé já que também na mesma época surgiu uma personagem de uma novela chamado Reginaldo, então você tinha três grupos que se via por ai: o que dava a cara para bater e acreditavam na “cena”, os que viraram ‘goths’ pelo que aprenderam no folhetim e os veteranos que raramente saiam, por constrangimento mesmo e só davam o ar da graça quando de vez e outra acontecia uma festa de revival, onde tinham a certeza que sons antigos tocariam nas pistas.

Cadavres Exquis: Esses veteranos não saiam mais por qual tipo de constrangimento?
Rod: Talvez por serem comparados com o tal Reginaldo hehe. Como todos nós sabemos a Rede Globo tem a capacidade de foder tudo, seja qual for à manifestação cultural – ela tem a manha de ridicularizar tudo, seja a coisa mais interessante até a genuinamente cafona – tudo vira pastiche. Mesmo assim surgiram pessoas curiosas com a tal “cena gótica”; se via documentários sobre isso, entrevistas. Muitos jovens, com advento do Plano Real (dólar um por um), puderam ter acesso a mais itens importados e assim virar a até DJ’s, como se faz hoje gratuitamente com o mp3 ou mesmo com um ipod! De uma forma ou de outra eu também passei a comprar mais discos, conhecer mais bandas com isso – frequentar as lojas da Galeria e não sair mais de mãos vazias. Era bacanas ir à lendária Mr Boris cujas vitrines eram em formato de vitrais góticos, decorados com vinis do Specimen, Alien Sex Fiend e a prateleira de cds que ficava no centro do estabelecimento tinha o formato de caixão. Lá se vendiam muitas coisas do Projeto Black Sundays, do DJ Tonyy que hoje comanda a Trash 80’s. Para mim foi sem dúvida o mais importante projeto de divulgação das “tendências góticas” – eram vários itens lançados e que tive a oportunidade de adquirir, como K7’s, camisetas até coletâneas próprias lançadas em vinil e cd (Black Sundays Compilation vol. 1 e 2)...De tanto frequentar essas lojas, você acabava ficando amigos dos caras que trabalham lá e eles iam te mostrando muita coisa. Fiz amigos na Bizarre, Bela Lugosi também. A Zoyd acho que é a única sobrevivente desta geração.

Cadavres Exquis: Além de um fanzine o Black Sundays tinha um projeto de discotecagem né?
Rod: Exatamente. O zine “Enter The Shadow” que era até então o único meio de ficar por dentro do que acontecia na cena fora daqui, como lançamentos, biográficas que hoje você encontra de monte pela Internet. Você ficava ansioso até que o próximo volume saísse. O zine, além de música sempre apresentava matérias sobre cinema e arte...Era bem caprichado, bem escrito, dava gosto de ler. Ainda tenho umas cópias guardadas com maior cuidado. O projeto de discotecagem rolava no Armagedon, infelizmente não tive a oportunidade de apreciar nenhuma edição, porém tenho alguns flyers de recordação. Quando falo que foi o melhor projeto de divulgação da cena obscura quero dizer em relação às coisas que vinham de fora também, já que nos anos 1980 eram raros os lugares que davam atenção para isso, ou se faziam, faziam de forma meio despretensiosa aqui em SP ou em Brasília. O que rolava era conhecido como “dark” e serviu de bases pro “rock paulista” também...Penso que o primeiro lugar com o “selo’ de club gótico aqui de São Paulo, foi a Treibhaus, o que costumo dizer que foi a nossa “Batcave”. Não cheguei a frequentar, mas tenho algumas fotos do lugar e histórias de colegas que batiam carteirinha lá... O pessoal ia pra se divertir e estavam pouco se fodendo pra pseudofilosofias.

Cadavres Exquis: Você comentou que tinha uma banda, ela chegou a fazer algum show ou gravar alguma coisa?
Rod: Era uma banda que fazia apenas covers. Ensaiávamos num quarto da casa dos meus pais em Caieiras (Grande São Paulo). Tirávamos sons do Cult, Sisters of Mercy, Fields, Stooges, Sex Pistols, Christian Death...Mas tínhamos uma ou duas músicas nossas que chegamos a gravar em K7, algo bem caseiro mesmo. A banda durou uns três anos, meu irmão ingressou no Abadon e logo se mudou pra Marília para fazer faculdade de Biblioteconomia. De apresentação mesmo considero apenas uma oficial, quando abrimos um show do Brazilian Cure (The Cure cover) e Pesadelo Químico (grupo performático de Adriano Pacionotto) num lugar chamado Graphitte em Guarulhos. Acho que isso foi em 1996, foi também à última vez que tocamos juntos. Penso que é meio pretensioso chamar aquilo de banda. Era mais um passa tempo mesmo, mas deveríamos ter levado mais a sério, acho que daria certo.

Cadavres Exquis: Depois disso, para qual outro projeto que você partiu?
Rod: 1997 foi um ano estranho para mim e acredito que também foi para o guitarrista da banda, Paulinho, que embora tenha se mudado para SP, nos distanciamos um pouco. Estávamos passando por uma fase conturbada, de problemas pessoais, mas foi legal, pois descobri que tinha uma certa facilidade para me expressar através de desenhos estranhos. Eu lembro que sem a banda eu poderia fazer um fanzine com esses desenhos que eram inspirados em sons “punk góticos” que eu curtia, como Sex Gang Children, Malaria!, Southern Death Cult, Danse Society...Um amigo meu do cursinho, em uma conversa discontraida, nomeou o meu estilo de “junkeria nefasta”. Gostei bastante e comecei a escrever biografia das bandas e mais desenhos surgiram até que conheci o Cid (Carcasse) que na época construía o site Sépia Zine. Ele curtiu a idéia do zine e me incentivou a integrar o Junkeria Nefasta ao Sépia. A coisa ficou no “gelo” por um ano...E neste ano eu frequentava um pouco o circuito clubber, me desliguei do que rolava por ai em termos alternativos; mesmo na segunda versão do Espaço Retrô abria seu espaço para projetos de música eletrônica, techno até mesmo brit pop...O circuito em SP passava por mais uma transformação; mesmo o cenário gótico desta vez se emergia por fóruns na Internet ou em volta de algumas novas manias; o RPG e Marilyn Manson, o que fez com que muito 'wanna be' aparecesse e esses ficassem mais interessados em se fantasiar. Desta maneira me afastei um pouco. Arquivei por um momento o Junkeria Nesfasta...Seria algo muito bacana, já que na época nem se falava em “death rock”. Era uma forma também de mostrar que a cena estava meio defasada, com a invasão de bandas de metal-gótico, crossover que invadiam a mente dos novos frequentadores dos clubs, o que me irritava de verdade. Eu parecia um velho reacionário, e arrumava briga com muita gente em fóruns que defendiam com unhas e dentes esta nova tendência. Hoje em dia acho esse tipo de birra uma piada, até porque não é de hoje que sons híbridos de vez em quando resultam em coisas boas...Em 1998 surgiram projetos legais de discotecagem numa casa chamada Umbral, como o “Pandora” que, mesmo dando espaço aos headbangers, oferecia sons old school nas pistas, o que fez aproximar-me timidamente de tudo outra vez...Muitos zines literários saíram na mesma época, muito material era reaproveitado com o que se achava na rede. Era mais fácil ter contato com gente “engajada” e novos DJs surgiram a rodo.

Cadavres Exquis: Foi ai que veio a idéia de fazer algum outro zine?

Rod: Em 1995 eu tinha escrito uma pequena biografia do Christian Death, escrita em word Pad! Era bem curta e me baseava em poucas informações (muitas equivocadas) que eu obtinha em alguns zines (como Past, Present, Forever) e mesmo dos discos. Era um ano legal para levar isso adiante, porque novas bandas e selos como Cleopatra impulsionavam o interesse pelo até então esquecido “gothic rock” mais tradicional. Em 1998, com a rede eu consegui mais material, imagens...Foi ai que tive a idéia de fazer um fanzine sobre a banda. Em abril daquele mesmo ano Rozz se matou, o que me motivou mais a prestar essa homenagem. Neste mesmo período tive a sorte de trocar algumas palavrinhas com Ron Athey, o ex-namorado do Rozz e co-fundador do Premature Ejaculation que esteve em SP para apresentar sem longa Hallelujah! no festival de diversidade sexual, Mix Brasil. Isso tudo me impulsionou a começar a colocar isso em prática com um amigo que tinha um zine chamado Shadow of Darkness, mas foi no outro ano com o Gheirart (Brazilian Cure, Love Cure’s e atual Dandi-Dracula) que a coisa deu certo. O que era para ser um zine acabou virando uma revista em off set mesmo...o “Invocations of Rozz Williams” saiu em 99. Ficou mais legal que se esperava; muita gente o considera um item fundamental. Claro que se eu pudesse o refaria com uma diagramação mais suja e com informações mais precisas, mas dentro do que tínhamos em mãos foi uma realização legal, ficamos bastante satisfeitos com o resultado e com a repercussão.

Cadavres Exquis: Existe alguma possibilidade de ser relançado?
Rod: Talvez algum dia, ainda tenho o seu fotolito. Mas como disse, preferia refaze-lo já que muita informação ali não é o suficiente perto do que já foi publicado sobre a banda e sobre o Rozz...Refaria com uma cara mais suja, com colagens e até poesias. A diagramação anterior é bem careta, mas eram as ferramentas que tínhamos em mãos. Os fãs adoraram porque até então não se tinha nada de Rozz escrito em português. Mesmo fãs lá de fora solicitaram algumas cópias, eu mesmo deixei uma no Runyon Canyon Park em Hollywood, onde o Rozz costumava caminhar.

Cadavres Exquis: Vejo que essas bandas que você cita hoje em dia seria bem clichê se fosse incluído dentro da chamada cena death rock...
Rod: Sim eu concordo...Mas nunca foi muito proposital para mim. Além do “deathrock” sempre fui um admirador de rock em geral, são tantas bandas que levaria um dia para citar todas...O “deathrock” está no pacote da chamada cena obscura, o rock gótico nada mais é que o resultado da mistura de vários estilos que foram se desenvolvendo desde o fim dos anos 50...Mesmo musicalmente é quase impossível classificar o gótico, fica a cargo de cada um interpretar. Seja aqui ou lá fora. Quem tenta fazer uma cronologia bonitinha da coisa acaba se dando mal; vemos pelo tanto de vinil ripado nos blogs de mp3 ou mesmo em relançamentos de discos “perdidos” do pós-punk que o Bauhaus, por exemplo, não foi o único responsável por isso tudo com sua “Bela Lugousi’s Dead”...O fato é mais complexo e mais amplo do que se pensa; é um grande quebra cabeça e intercambio de estilos. Muitos paises tiverem seu papel nisto, como Alemanha com seu Neue Deutsche Welle ou a França com sua cold wave, onde saíram centenas de bandas que hoje aos poucos vem sendo resgatadas. Essa coisa de que tudo que aconteceu na ponte área Londres x Los Angeles foi desmascarado...Mesmo no Brasil, falar da primeira geração “deathrock” não se limita apenas no contingente “dark” (que não tinham nada de humor negro além de referências mais sérias como o existencialismo e do próprio pós-punk, via Joy Division). Poderíamos voltar mais no tempo e citar o Joelho de Porco como um dos percussores da “cena” daqui. Já são reconhecidos como uma das primeiras bandas punks do Brasil, mas se você ver os vídeos antigos, o visual, vai concordar comigo...Zé do Caixão, não só pelos seus filmes de terror, e sim seus filmes pornôs-bizarros rodados na Boca Lixo. Tem coisa mais underground que isso? Acho uma tremenda bobeira algumas pessoas até hoje quererem ver a música ou uma expressão artística de maneira muito limitada, separada de tudo que acontece a volta. Uma época eu achava que era coerente brigar ou lutar por isso. Mas é como dar soco em ponta de faca. Você vai ficando mais velho e vê que isso é uma tremenda idiotice. Mesmo porque na pós-modernidade e com o crescimento das redes sociais você pode ser tudo, celebridade, criar sua personagem e ter uma banda nova que soa como antiga, ainda há pessoas que acham tudo isso é uma novidade. Fazer uma batida quatro por quatro, baixo a frente de tudo, vocal ala Ian Curtis está super na moda...e se você faz isso soa super cool.

Cadavres Exquis: Esta percepção foi o motivo para que você se desligasse do projeto “Batzone”?
Rod: Também. Quando criei este projeto com uns amigos, estávamos crentes que poderíamos salvar a tal cena dos clichês, do estrago que o metal-gótico (via bandas que tinham vocalistas com seu visual de “secretária medieval”, tipo Nightwish) e o chamado “future pop” com suas tranças de nylon tinham causado por ai. O “Batzone” foi uma forma oportunista de resgatar o que o Junkeria Nefasta havia plantado anos atrás, de apresentar sons antigos que há muito tempo não chegaram nem ao conhecimento do publico. Paralelamente eu e Julia Ghoulia também estávamos com planos de fazer uma versão brasileira do portal Deathrock.com do Mark Splatter...Isso era o ano de 2003, eu acho, quando a loja o Douglas Graves, a Batcave Records, era o reduto deste pessoal que estava de saco cheio de tudo isso, embora alguns até tinham projetos bastante próximo do que acontecia até então. O Douglas mesmo era um punk veterano, que tinha um currículo de bandas bem extenso. Era uma turma boa. Como alguns sabem a “cena” gótica daqui também nunca foi adiante por causa das panelas e a desunião de algumas pessoas que reafirmam sua desonestidade e atitude porca e fomos prejudicados por isso também...Eu mesmo fiquei sem receber pela capa que fiz pro cd bootleg do Poesie Noire – vol 1! Bom voltando ao “Batzone”; ele surgiu como um projeto de discotecagem que durou umas duas edições, depois se transformou em um zine que durou três edições; duas editadas em papel e uma arquivada. Nós tínhamos uma idéia de ir contra corrente, mas nada de lutar diretamente com a coisa como se fossemos enviados do além...Percebi que até um ponto funcionava pelo seu ar provocativo, mas depois percebi que não, porque tudo caiu no senso comum e humor havia acabado e tudo voltava ao velho clichê que tanto criticava. É bem difícil lidar com adolescentes...

Cadavres Exquis: E qual foi o motivo do fim?
Rod: Entre 2003 e 2005 a cena Deathrock cresceu bastante lá fora e como SP é uma cidade que sempre recebe as “novidades”, não poderia ser diferente. Eu também queria colocar em prática algumas coisas que vi em algumas viagens que fiz pra Los Angeles, onde passei por pontos importantes como as lojas Retail Slut, Dark Vinyl e o projeto Release the Bats...Bater um papo com a Gitane Demone e William Faith (Faith and The Muse) foi inspirador, e eles mesmos estavam empolgados com o que estava acontecendo. O Batzone assim como alguns membros de algumas bandas era um contingente só, mas sempre houve aqueles que interpretaram a coisa errada. Tinha uma galera nova que seguia a gente, mesmo nos show do Crippeled Ballerinas que chegou até abrir um show do The Brides (EUA) por aqui. Muito moleque se empolgou com a parada de ver alguns “punks de boutique” vestidos como zumbis e pogando. Surgiu à idéia de gang, porque eles não queriam ser chamados de góticos e muita gente levou a sério. Os nossos zines tinham a sigla DRSP, uma forma de identificar de onde vinha o pessoal que fazia, assim como em Los Angeles, NY...Alguns babacas pensaram que isso fosse uma ordem, um grupo que estava literalmente disposto a lutar (a dar porrada!) pelo tal deathrock! Isso mesmo. Mas havia gente dentro do projeto que estava mesmo disposta a isso mesmo...Vi que a coisa estava crescendo de forma equivocada. E ai decidi abandonar o barco, já que eu não era nenhum neófito e não era obrigado e ver esta palhaçada toda...Eu lembro que quando eu tinha uns seis ou sete anos de idade eu tinha um clubinho, isso me fez recordar da infância e pra me poupar de algumas coisas, decidi que era melhor meu nome não ficar mais ligado a isso, ainda mais depois que vi que alguns caras até estavam se associando alguns skinheads para arrumar confusão por ai. Não aceito fundamentalismo de jeito nenhum e essas siglas nada mais são que uma forma de segregação...Quem lê isso pode discordar, mas me dá muita preguiça. É uma afetação inútil.

Cadavres Exquis: Já cheguei a ver seu nome citado por algumas pessoas que ainda acreditam na tal cena...
Rod: Eu também já vi, em blogs que até “roubaram” matérias do Junkeria Nefesta...Em algumas entrevistas de membros do tal “DRSP” citam o meu zine como “algo mais legal já feito”. De fato eu me dedicava, mas não em nome de uma cena, movimento e sim pela música que ouço. Penso que é uma tremenda idiotice essa coisa de separar isso por regiões tipo DRSP, DRRJ, DRES. Sinceramente penso que isso seja insignificante a ponto de achar que a tal cena está mais morta do que já estava em mãos de molecada deslumbrada. É como dar faca na mão de criança. Sei que é exagero, pois isso nem tem grande impacto na vida cotidiana e que faz disso uma coisa underground é a falta de interesse que isso gera...Sei que isso logo vai acabar de vez, se é que já não acabou - sei que existe pequenos focos no Brasil a fora. A coisa mais chata é ver que sempre tem alguém querendo teorizar alguma tendência, rotular...Deathrock e gótico é tudo a mesma merda...Quem leva isso muito a sério deve ter algum problema mental ou mesmo é limitado intelectualmente. São Paulo tem muita coisa legal, mas assim como muita cidade do interior há muita gente provinciana e que vive de aparências...As coisas chegam no Brasil muito deturpadas mesmo e há gente de montão que tem a capacidade de fazer isso muito “bem”. Não temos uma cultura alternativa com bases fortes, embora haja gente engajada de verdade envolvida...Nem temos uma tradição cultural que permite isso, até porque a arte e educação são coisas que não são levadas com respeito por aqui...Penso que a Tropicália foi único movimento cultural realmente brasileiro. O resto é pura cópia mal feita.

Cadavres Exquis: Mas você não acha que é melhor isso do que apenas ficar na idéia?
Rod: Talvez, porque até recebo alguns mailings com festas que ainda deixam a coisa acesa. Mas não é por meio de estereótipos, clichês e segregações que isso vai pra frente. Mas temos um histórico de muito tempo de gente sem referencia que transforma isso em radicalismo, o que deixa a coisa “feia”, sem sentido e ridículo em pleno século XXI. Seria a mesma coisa de um sueco querer fazer samba em seu país, por mais que haja identificação fica um resquício esquisito no ar se não houver bom senso...Infelizmente muitas bandas clássicas “deathrock” que embarcaram nesta também e foram reformadas por causa de grana, ou tentar fazer fama retroativa em cima disso. Estão fazendo um jogo horrível e que até macula o passado. Acho que o que era bom ficou para trás...Onde de fato existiram bandas com atitudes inteligentes ligadas a um senso estético e artístico legal, mesmo que ingênuo funcionava muito bem, hoje em dia tenho lá minha dúvidas...Se fosse para escolher, eu esqueceria essas bandas que frequentam festivais de hoje e ficaria com as bandas de pós-rock que têm mais feeling do que estas que insistem em brincar com roupas e esqueletos comprados numa loja de fantasia da 25 de Março. Desde sempre o rock esteve ligado a moda, e não é com qualquer trapo que você convence, para começar por ai...Tem que ter atitude - deathrock virou sinonimo de burrice e mal gosto. Ter um visual não é esconder sua verdade, nem serve como escudo estúpido como de uma torcida “organizada” de futebol. Falo isso porque é como eu vejo a coisa hoje, esses emblemas são para queimar o filme, já que se formos olhar lá pra trás, onde o “positive punk” serviu de apoio e ajudou a compor o chamado som “batcave”, a versão britânica do “deathrock” e veremos esta incoerência. O “positeve punk” tinha raízes nos redutos anarco punks onde a homofobia e a violência era execrada...Tudo era baseado na libertação do espírito e naturalmente no respeito. Era feito por gente mais séria e refinada e vejo que a sua estética elegante está sendo revisitada por muita gente da moda e música contemporanea..

Cadavres Exquis: Mas por ter feito o Junkeria Nefasta, fez parte de tudo isso...
Rod: Não posso criticar muito, pois sei que de alguma forma ajudei a compor a chamada “cena tupiniquin” daqui, ou melhor, formatar um grupo de admiradores deste subgênero. De alguma forma você se sente responsabilizado, mas “responsabilizado” é algo forte, pois no fim não levo a coisa a sério, tanto que me desliguei pelo fato de não levar isso mesmo a sério. Vejo que quem vive isso está numa fase de sonho em que estar “batalhando” por isso é quase um ideal...Não quero soar arrogante falando tudo isso, porque cada um tem as suas fases e o aprendizado é individual. Mas melhor isso que gastar o tempo com música cafona que sai dos auto falantes dos carros nos finais de semana...O punk e o “gothic rock” (que pra mim nada mais é que um sub produto do punk) mesmo que reconhecidos pelos seus estereótipos acabam abrindo a mente para outras manifestações legais como literatura, cinema, artes plásticas, body art etc. Quando alguém se empapuça deste tipo de representação percebe que sua bagagem foi preenchida com um monte de referência legal de vanguarda como expressionismo, dadaísmo, futurismo...O que é muito válido mesmo nos dias de hoje, onde você pode criar peças gráficas baseadas neste tipo de arte. Quando o grupo (Batzone) se desintegrou ainda lancei um zine com uma banda que me ajudou de fato a olhar a coisa mais amplamente, o Virgin Prunes cujo trabalho ecoava muito além da música...Começaram como uma “gang”, mas a maior arma deles era a ironia que de fato é forma mais genuína de superação e afrontamento da própria existência.

Cadavres Exquis: O desligamento do Batzone foi uma forma de seguir a coisa sozinho, já que muitas de suas matérias foram reaproveitadas no site Junkeria Nefasta...
Rod: Foi uma forma mais barata de continuar...E era uma boa oportunidade de alcançar mais leitores, sem contar que foi uma boa desculpa para colocar o “velho” Junkeria Nefasta finalmente no ar com uma nova cara e com a colaboração de outras pessoas. Eu o atualizava semanalmente. Usei até matérias que havia escrito num blog de curta duração chamado Drop Dead, onde eu colocava até uns desenhos meus. Depois que acabou, fiquei sabendo que algumas das matérias são usadas no banco de dados em português do Lastfm, mesmo alguns blogs prestaram homenagem a ele...Acho legal esta memória boa que o zine trás, tem gente que até o usou o nome “junkeria nefasta” como gíria hehehe.

Cadavres Exquis: E não seria uma boa reformá-lo?
Rod: Acho que não tenho mais paciência e nem saudade de nada da época que ele estava no ar. Mas aos poucos tenho postado algumas matérias neste blog. Às vezes tenho me dedico mais as minhas colagens...Queira ou não é uma forma de manter viva essa coisa toda, de forma mais subjetiva. Algumas delas já foram até usadas para banda Dandi Dracula que mostra uma nova possibilidade de banda “dark” sem cair na cafonice que estamos cansados de ver por ai.

Cadavres Exquis: O “deathrock” está morto então?
Rod: Totalmente, como o próprio termo sugere. E nem sei porque perdi meu tempo escrevendo tudo isso.

Cadavres Exquis: E as discotecagens da Escola de Cretinos?
Rod: Rolaram umas duas vezes, uma no club Hole e outra na Loca já faz um tempo...Eu e o Alex Ratz estávamos na época bem antenados em sons minimalistas e cold wave. Pretendíamos até montar um projeto musical. Meu sintetizador Korg ainda continua guardado, esperando minha boa vontade e uma nova oportunidade.

Cadavres Exquis: No site Junkeria Nefastas tinha uma sessão de inventario com a sua coleção. Você ainda continua fazendo esta listagem?
Rod: Depois que o site saiu do ar eu parei de relacionar os itens que adquiro, mas hoje em dia eu tenho me contido mais...Não tenho mais espaço para os discos, mas no dia que eu tiver mais espaço e oportunidade vou fazer uma sala só pra eles. Quando eu morrer quero ser cremado com todos eles. É um vício difícil de se curar.

Cadavres Exquis: Quais foram os últimos itens que você comprou?
Rod: Peguei umas edições especiais e remasters do Cult e Chameleons UK, alguns vinis do selo Minimal Wave. Mas estou dando atenção a uma série de cds com gravações esquecidas do Premature Ejaculation que nunca tinham sido lançadas em cd, apenas em K7. É um estilo difícil de assimilar, porém acho que são itens fundamentais para quem ama o trabalho do Rozz Williams - nestes trabalhos está a sua verdadeira essência. Parte das minhas colagens se deve a esse tipo de sons perturbadores.

Cadavres Exquis: Fora aos estilos que citou até agora, quais as outras coisas que você ouve e que de nenhum jeito você escutaria a alguns anos atrás?
Rod: Há uns dois anos decidi dar mais atenção a alguns sons fundamentais, até uma forma de enxergar o que de ruim eu tinha na minha coleção e poderia ser descartado. Descobri tardiamente Scott Walker, o folk inglês dos anos 60 de raízes celtas e meu interesse pela Nico ficou mais forte quando garimpei mais a sua obra solo. Ainda gosto muito de coisas vindas do post-punk, mas com esses “clássicos” foi possível ser mais seletivo, descartar muitas merdas que antes dava atenção... Tirando isso, gosto de umas coisas da Tropicália, new wave, Skid Row, Buena Vista Social Club. Às vezes me pego escutando coisas antigas do pessoal do Clube da Esquina como Milton Nascimento e Beto Guetes...Gosto bastante do primeiro álbum do Ney Matogrosso - o considero bem ousado e atual, trocaria qualquer disco de EBM por alguém dele.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cercada de mistérios, a onda dark vai às pistas

Bandas ainda desconhecidas de nomes impronunciávieis surgiram pela internet


Witch house assume influência da magia negra; som que toma festas fora do Brasil não deve virar moda aqui

CAROL NOGUEIRA
DE SÃO PAULO


Não é de hoje que música passa, de tempo em tempos, por vertentes sombrias. Basta lembrar do pós-punk, nos anos 1970, ou do rock gótico e da eletrônica que se fazia na década de 1980.
No ano passado, os góticos do The Horrors chamaram atenção da crítica e levaram até uma indicação ao Mercury Prize, a mais importante premiação da música britânica. O dark fofo da banda xx ganhou este ano o prêmio.
Em 2010, outra banda sombria conquistou crítica e público – o Salem (ou S4lem, como é estilizado). O trio, formado pelos cabeludos John Holland e Jack Donoghue e a loira sexy Heather Malatt, veio da pequena Traverse City, no Michigan, nos EUA.
Hoje, o grupo é um dos mais comentados nos blogs de música, ganhou repercussão no “New York Times” e virou trilha do desfile gótico de Guvenchy na última Semana de Moda de Paris.
O burburinho só aumentou após o lançamento do primeiro álbum, em outubro, intitulado “King Night”. Antes, veio o EP “Yes, I Smoke Cracl” (sim, eu fumo crack).
O Salem, que assinou em agosto com a Sony, também ficou conhecido por fazer (poucos) show para lá de confusos e dar raras entrevistas. Seus membros não falaram à Folha; o empresário afirma ter tentado convencê-los.
Em tempos de vampiros, zumbis e filmes “found footage” (leia texto abaixo) invadindo o cinema, a televisão e as livrarias, não espanta que surja também um gênero musical relacionado,
Chamado drag (arrastar), with house (house de bruxa) ou spookycore (rock assustador), o “novo gênero” tem bandas ainda desconhecidas, de nomes impronunciáveis e, não raro, símbolos que tornam impossível achá-los no Google, como sequências de cruzes e triângulos.
O burburinho começou na Internet, foi levado às rádios americanas e algumas festas já tocam esse som lá fora.
No Brasil, DJs ouvidos pela Folha acham pouco provável que a onda chegue aqui, a não ser que seja “muito misturado”. No máximo, podem fazer como o duo carioca Twelves, que remixou a sombria “Seven”, da artista Fever Ray, no ano passado.
O que chama atenção na cena é que mesmo entre os grupos que são considerados expoentes, há controvérsia sobre o que é o gênero e se ele é mesmo novo.
A explicação é que o witch house tem influências que remetem ao hip-hop e ao rock gótico, com batidas eletrônicas, baixo lá em cima e vocais muito recortados.
Também é comum influencia de ocultismo, bruxaria, ou magia negra. E, como todo bom dark, os músicos chamam atenção com maquiagem e roupas pretas.
A Folha conversou com quatro bandas para entender o que é, afinal, o with house. Os músicos não quiseram falar por telefone e pediram que seus nomes não fosse citados, apenas os de suas bandas. Assustador?

OPNIÃO

Morbidez da meninada de hoje é de assustar os velhos vampiros

ANDRÉ BARCINSKI
CRÍTICO DA FOLHA

Uma das grandes revoluções da Internet no panorama musical foi acabar com o conceito de ‘cena local”.
Antigamente, “cena” abrangia uma grupo de bandas ou artistas conectados geograficamente e que faziam música similar.
Várias partes do mundo tiveram as suas: Nova York e Londres geraram o punk, no meio dos anos 1970; Seatle teve o grunge e Manchester, a acid house. A Escandinávia gerou uma cena fortíssima de bandas de hevay metal extremo; Detroit teve o techno...
Com a interne, não importa mais de onde os artistas são, contanto que possam se encontrar virtualmente.
A cena de witch house – ou drag, ou haunted house, como preferem alguns, é assim; diversos artistas espalhados pelo mundo. Pouco se sabe sobre eles. O mistério é a alma do negócio.
“Sinto que muito do desenvolvimento musical acontece on-line. As cenas locais não são importantes”, disse ao site Pitchfork Christopher Dexter Greenpan, que grava como oOoOO (a pronúncia é “Oooo”).
Musicalmente, o witch house é simples: pop eletrônico lento, quase “ambient”, mas com um clima lúgubre que lembra os sons góticos de Sisters of Mercy e Cure.
Imagine o Portshead ou Massive Attack fazendo trilha de um filme de terror como “Atividade Paranormal”, substituindo a beleza etérea de sua canções por uivos e efeitos sonoros assustadores.
Outra influencia é o dubstep de Burial, o misterioso produtor inglês. Sua mistura de batidas eletrônicas minimalistas com melodias sombrias parece ter tocado fundo nos corações negros dos expoentes do witch house.
O que nos leva a outro fator importante para a cena musical: a obsessão em levar suas influencias ao extremo.
Desde que o rock surgiu, jovens sempre buscaram emular seus ídolos, adaptando a música ao próprio tempo. A tendência disso é uma radicalização sonora e estética.
O conceito de som “pesado” ou “extremo’ se estreita a cada dia, Uma banda como Black Sabbath, que praticamente inventou o heavy metal e era considerada uma aberração nos anos 1970, hoje pode tranquilamente ser ouvida em qualquer rádio comercial.
Os artistas de with house parecem muito influenciados pelo som gótico, uma vertente nascida nos anos 1970, marcada por sons triste e românticos,
E os vampiros de outrora, gente como o Bauhaus ou Siousxie, certamente se assustaria com a morbidez de hoje.